O Amor de Mariano – Capítulo 2

capa_o_amor_de_marianoSeguindo Dico ele bateu nas portas do sobradão antigo. Viu quando Dico encheu a cara e começou a falar besteiras. Resolveu acompanhá-lo no intuito de salvar a donzela. Dico não tardou a gritar de baixo para que ela aparecesse na janela:

— Agora que eu não te quero mais, Dico! Por que matastes o pobre burro?

— Por amor a ti, Dada!

— Que amor, que nada, Dico! Por que me atribuis esta morte… Não, Dico, vais te embora daqui, não me causes mais complicações na vida!

A rapariga era muito linda. Dico diminuia perto dela:

— Foi pra realizar teus caprichos Dadá! O burro tava empacado! Eu acabei com ele… porque te queria mimar…

— Bendito seja o pracinha que te impediu de cometer mais besteiras, Dico! Não te revoltes contra ele, que o pior ele evitou! Vais te embora, Dico! Não me traga mais problemas… – aconselhava do beiral da janela no andar de cima. Os cabelos longos feitos o de Yemanjá.

Escondido estava Mariano e escondido ficou a observar encantado com a beleza de Dadá, que se referia a sua pessoa como bendito pracinha. Como era bom a sensação que experimentava. Dico ainda zonzo buscava caminho de cabeça baixa e andar bêbado, rumando ladeira acima na direção da antiga fábrica de sabão.

Mariano apaixonara-se tão perdidamente por aquela mulher, ela era linda, de levar um homem à loucura. Sentiu vontade apresentar-se de farda para ela, como herói; raptá-la daquele sobrado para um outro lugar, onde pudesse fazer amor com ela e tê-la como amante até onde não desce mais; onde o mundo os estreitassem no impossível da vida.

Naquele dia abandonara a ronda mais cedo e foi ter no mar: mergulhou, afastou-se nadando da praia, ficou boiando por horas depois que passara a arrebentação até adentrar no mar alto, para só depois voltar no entardecer com a sensação da alma lavada e mergulhado no desejo de um elo eterno com aquela diva, para quem entregaria seu coração.

Na boca da noite estava barbeado e arrumado para se divertir no Sobradão da Rua da Palma. Saiu à paisana, ao entrar no sobradão, passou pelo pórtico e foi sentar ao lado do piano, que executava uma antiga cantiga de marinheiro. O ambiente guardava um cheiro de gardênias. Uma senhora roliça ofereceu-lhe algo de beber, aproveitando para piscar-lhe o olho. Não tardou alguém o reconheceu como o boa praça, que tanto fez mas não conseguiu evitar a morte do pobre burrico. Grande foi o alvoroço que surgiu então, tirando Dadá dos aposentos para lhe agradecer-lhe de todo o coração. Ele por outro lado anunciava mais uma rodada de bebida para todos, tocando o sino pendurado no balcão.

Durante toda a madrugada se amaram perdidamente no pequeno aposento, onde um ventilador de teto rangia sem parar.

Sim, transcorrera quinze anos quando tudo começou. Agora ele fechava os olhos e as imagens de todo amor se configurava num pesadelo. As mãos tremulavam, a órbita dos olhos saltava, o corpo transformava em ódio a traição. Logo que se apaixonara por Dadá frequentava todos os dias o antigo sobrado da Rua da Palma. Era tão certo lá quanto foi ficando relapso no convívio. Começou a beber mais do que devia, vivia a realizar seus devaneios amorosos, pouco se importando para que os amigos diziam. Não foi por falta de conselhos que anos mais tarde teve que desertar da Marinha. Já não conseguia mais se afastar de Dadá, e também não queria ir à guerra.

Foram morar juntos. Ela abandonou o sobrado, a condição de eterna amante. Dadá também por ele se apaixonou perdidamente. Parecia mais bela com o amor a reluzir nos olhos, a trazer na mão uma aliança de ouro e anéis com pedras ametistas e safiras, colar de madre-perólas, pulseiras, correntes de prata a torná-la mais bela e desejada pelos homens do Portinho.

Porém eis que lhe bateu a porta a desgraça. A dificuldade e a miséria se arrastou pela cidade. Os armazéns não tinha mais a pesca, uma crise na economia mundial foi abalada com as trincheiras, planos desastrados rondaram pelos países do mundo inteiro, em São Luís foi decretado estado de calamidade com o tanto de doenças que proliferavam. Houve paralisação, greve nos serviços públicos, surgiram epidemias, Mariano caiu doente sem poder trabalhar.

Nessa época Dadá começou a desfazer-se das jóias e as reservas rápido esgotaram. Corria à-boca-miúda que Dadá voltara ao antigo meio de ganhar a vida, fora vista novamente no antigo sobradão. Os motivos: primeiro por necessidade, manter-se viva e a Mariano; depois com a separação, que transformou a dificuldade da vida em coisa natural de sobrevivência.

Amanhã último capítulo.

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Sobre mphaickel

Professor e escritor, autor do romance "O Cinza da Solidão", na sua 3a. edição, publicado pela Thesaurus Editora.
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