O Amor de Mariano – Parte final.

ancora

Mariano virou motivo de chacota, e cada vez mais creditava sua vida à desgraça daquele amor. Mesmo separados, Mariano tentou aprumar sua estrutura com sua moral vencida: amava ainda mais Dadá. Nos encontros às escondidas, entregava-se às carícias de uma profissional. Embriagava-se no cheiro dela, e não demorava a cidade toda sabia do seu xodó. Não bastavam-lhe os adjetivos de galhudo, relutava contra tudo e contra todos para satisfazer-lhe às vontades. Muitas vezes implorou para que ela voltasse para casa, e ela como antevendo a tragédia dizia não repetidas vezes. Assim viveram os últimos longos anos. Um amor clandestino, louco, infernal, que por último atormentava-lhe o juízo.

….

Agora era tarde de mais pra voltar, o vermelho do sangue misturava-se ao ocaso. O sinistro ocorreu com a chegada de um gringo. Viera num catamarã, velejando da Europa até atracar no Portinho; levado a conhecer a cidade pelos pescadores, bebera muito no sobradão da Palma, onde deslumbrado, acabou adormecendo no quarto de Dadá, que sonhava acordada em se libertar; desejava velejar pra longe daquela terra, onde amargara tanta desventura, com amores que eram mal falados por toda cidade.

Arrumava os paninhos enquanto seu mais novo príncipe encantado dormia, depois de uma noite de transa. Foi quando entrou porta a dentro Mariano fazendo escândalo:

— Vais me abandonar, Dadá?

Distraída, Dadá vestia as peças de roupa íntima.

— Eu nunca vou te abandonar, Mariano.

— É esse que quer te tirar de mim? É, Dada?

O gringo levantou e sem muito perguntar nem entender tentou acertar uma pescoçada de cheio em Mariano, que se esquivando, sacou da peixeira que trazia na cintura e cortou-lhe a barriga, deixando à mostra as tripas.

Dadá correu para ajudá-lo, quando Mariano com a faca na mão gritou:

— É com ele? Então preferes ele a mim?!

— Que loucura é essa, Mariano? — Estás louco?

— Louco de amor por ti, Dadá! e logo em seguida com várias facadas lhe cravou o peito antes de sair correndo porta a fora, embalado para o banquinho do Porto. Ali chorou por várias horas, depois feito criança sentiu calafrios, amor, ódio, desespero, angústia e medo. Todo seu amor era agora uma mistura de sentimentos que não sabia mais distinguir.

Quando Dadá apareceu pra ele e perguntou:

— Por que Mariano, se tu bens me conhecia, sabia de tudo?… que ficava com outros homens!… por que Mariano que tu me mataste?

Mariano parecia boiar em alto mar. Sentia vontade de chorar! Chorar profundamente por aquele amor. O seu único e verdadeiro amor. A pergunta estalava em seu cérebro, martelando: por quê tu me mataste, Mariano?

Mariano respirava fundo, fechando os olhos e nada mais via. O sangue na mão lhe causava torpor. O crepúsculo tingia tudo de rubro. A maré enchia com ondas que formavam banzeiros enormes e vinham bater na mureta da praça do Mercado de Peixe. O sino da igreja badalava o fim de tarde. Mariano como que caindo em si, lhe disse em voz alta:

— Queres saber o porquê? Os outros te possuíam. Mas este último era diferente, queria tua alma! Isso eu não podia deixar! Foi por isso, que eu os matei! Ele queria roubar-me tua alma… eu não podia deixar, Dadá…

Mariano sabia que o seu amor tornara-se por fim uma loucura, uma obsessão. Foi então que levantando do banco saiu correndo em direção ao mar. Mergulhou fundo, atravessou a arrebentação e nadou firme até o meio da baía; lá boiou por horas buscando aquela sensação de quando a viu na sacada; nadou por horas, debalde, sempre entrando em alto mar e diferente daquela primeira vez, não mais voltou.

fim

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Sobre mphaickel

Professor e escritor, autor do romance "O Cinza da Solidão", na sua 3a. edição, publicado pela Thesaurus Editora.
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