Quem vai querer comprar bananas? – Capítulo 1

bananas

Quem vai querer
comprar banana?
(Novela brasileira)

“Tá tudo solto na plataforma do ar.
Tá tudo aí, tá tudo aí!
Quem vai querer comprar banana?”
(Luiz Melodia)

Paulo Freire reflexiona: “Não nasci marcado para ser um professor assim (como sou). Vim me tornando desta forma no corpo das tramas, na reflexão sobre a ação, na observação atenta a outras práticas, na leitura persistente e crítica. Ninguém nasce feito. Vamos nos fazendo aos poucos, na prática social de que tomamos parte”.

Folhetim literário que conta a história de Daniel, um professor e escritor que depara-se com os mais diversos desafios da Educação Brasileira

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CAPÍTULO 1

Encostado no umbral que dá para o fundo do quintal da casa, ainda tentando entender, busca uma razão lógica, quiçá argumentar consigo o porquê de tudo acontecer assim; andava meio injuriado e parece que uma coisa puxa outra, a miséria de tudo parecia querer me abraçar com suas garras escuras… Fé? pensava: muita ou pouca? – desilusão pura e simplesmente? Não! Percorria n´alma e pelas veias uma descrença humana capaz de a todo momento paralisar minha ação, era um senão… medo, algo maior; a ignorância que gera a precipitação, o caos, o desespero, aquela coisa que nos impulsiona logo pela manhã a sair de casa…

Bem-vindo à selva, onde os bichos agora são de lata, rosnam e buzinam! Aonde a luz acende e você passa, a luz apaga e você é obrigado a acompanhar o fluxo. A lei do não pode! Não deve, não faça! Questionar, criticar, ser solidário? Nem pensar, os caminhos se encontravam cheios de desvãos, polícia a te espreitar, a lei a te limitar, as regras sociais funcionando somente para os fracos, a religião como sempre a explorar e resignar a população. Difícil, tudo muito improvável, impostos escoando pelo viaduto da corrupção, escândalos e mais escândalos publicados nos jornais, que serviam quando muito, para embrulhar peixe na feira. Um estado de democracia civil… Toda eleição os mesmos voltavam ao poder, se perpetuavam, corrompiam, subornavam… a justiça parecia escarnecer da miséria e a esperança era uma ciranda de muitos na vala comum do passar das horas, em busca de promoção, mais dinheiro, menos dignidade que pensava por fim: capitalismo irracional que a muitos faz entrar pela noite à procura de paz no breve instante que resta até o dia amanhecer, antes de começarmos tudo de novo, ou nos assustarmos porque de novo já é segunda-feira.

Não que seja só mais um idealista, como muitos podem tentar resumir ou relativizar essa história. No fundo tenho certeza que a grande maioria exausta nem sequer pensa realmente; antes querem mesmo é descansar, ligar a TV e o piloto automático: comer, beber, dormir, rezar… só que comigo não é assim! Eu penso e penso até mais do que deveria. Eu assumo riscos, me importo, estou sempre pronto a solidarizar-me, ainda acredito na amizade; que nada é por acaso, que as pessoas se conhecem e suas histórias dependem uma das outras para se compartilhar da felicidade… Ainda prefiro isso ao desamor que vejo andando pelas ruas. Não sei, posso estar exagerando, mas tenho visto muito bicho escroto por aí… pessoas que estão prontas a impor sua lógica, sua maldade, seu ego e sem escrúpulos posam de mocinhos quando na verdade são bandidos que bradam ao vento sua covardia e opressão; pessoas que ostensivamente elegem o ter e não o ser como moral de vida e se assim o fazem encontram no silêncio do vazio o eco que lhes corrói.

Talvez mesmo que esse desencontro seja isso: acredito agora que o impasse esta bem aí, sentia que existia uma ordem misteriosa que obrigava a mudar a natureza das coisas, o convívio nessa selva urbana tornava-se cada dia mais feroz, e eu precisava encarar a briga de frente e diária para ter direito ao sol porque estava mesmo cansado da escuridão. Claro que no sentido figurado. Mas enfim, o dia chegava ao fim e tinha poucas horas antes de tudo começar de novo; e dessa vez queria dar um basta e fazer tudo diferente, queria ser diferente para tornar-me igual, sei lá… sei que vocês entendem do que estou falando.

Caminhei pela cozinha da casa, tinha planos de morar com a Yolanda; vivia a experiência de trabalhar como professor temporário nos últimos quatro anos, numa roda financeira de mais maré baixa que alta. E mais uma vez movido pelo amor e pela paixão tinha ganas de meter a cara, o pé, o coração, estava todo dentro, enrolado, mas com planos da casa e de outra família; um tanto exausto outrossim feliz, mas também esgotado.

A noite chegava suave, lá fora o barulho parecia ter dado uma trégua, caminhava por fim pelo quintal, os meninos dormiam. Olhava para os lados, para cima para baixo à procura de respostas para certas perguntas que martelavam minha mente. Sentado na soleira da porta novamente que dá para a divisa do terreno, pouco mais de 25 metros de frente por 50 metros de fundo. Por hora, além do plano da casa, tinha em mente dois processos seletivos: um para professor efetivo e outro para o mestrado em teoria da literatura na UnB. No quarto Yolanda dormia, eu caminhava com insônia pelo quintal quando para minha tristeza vi o Pretinho deitado estrebuchando. Putz, que dó: tremia muito e se contorcia com espasmos; ao perceber minha presença ainda tentou levantar… me lançou um olhar que terminou de quebrar meu coração… Não sabia mais o que pensar naquele fim de noite. Só dei por mim depois que chorei bastante, muito mesmo antes de chamar por Yolanda.

Amanhã continua…

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Sobre mphaickel

Professor e escritor, autor do romance "O Cinza da Solidão", na sua 3a. edição, publicado pela Thesaurus Editora.
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