Quem vai querer comprar bananas? Capítulo 2

pretinhoComo viver além do bem e do mal? Se o próprio Nietzcshe ficou louco, como sobreviveria? Os pensamentos vão e vem meio que em círculos. Acho que a vida é também assim, por isso passamos duas, três, quatro vezes pelas coisas, talvez que muitos não percebam, mas tudo é cíclico, são voltas que o mundo dá perdido no Universo…

Encontrava-me a bem dizer no ciclo ético, aquele que vem logo após o estético, em que somos movidos pelo belo. Agora era movido pelo certo e o errado, e isso é sempre difícil de saber, ainda mais com a relativização pós-moderna… paralisava-me certas atitudes que não julgava certa, assim como aquelas que desconfiava também não ser de toda errada.

Digamos que eu tenha nascido sob o signo da contracultura, da música progressiva, da balada, do rock pauleira, joelho de porco, da pintura de Anita, da loucura do Oswald, da lucidez cega de Torquato, dos Beatles, filho da Paz e do Amor, da energia do Planeta, de elemento Terra, não é de estranhar, a essa altura contemplar o Paraíso e perceber com mais clareza e ver tantas Serpentes.

Ultimamente vinha pensando melhor desde que distante me encontrava e mais perto dos outros: espelho da realidade vinha conversado com pessoas e a experiência tinha me comprovado que a velha dualidade aos poucos se multiplicava com o passar dos anos é normalmente quando começamos a nos cobrar mais do quase nada do muito que faltava ou do pouco que restava ainda de vida em mim.

Na floresta os bichos se juntam às árvores, festejam, se escondem, se mostram, se camuflam, metamorfoseiam-se, cada qual adota uma tática para sobrevivência…o que exige também uma pequena pausa para o tudo ou nada de nós!

Tudo pode estar começando sempre a qualquer momento. Mas não acaba nunca… Viver é estar aqui para suportar as provas duras que o destino nos está sempre a apresentar. Há uma seleção natural que advém de tempos em tempos e junto com os compromissos por nós assumidos.

Também não adianta que não se consegue a felicidade mandando tudo às favas! Tudo pode estar começando sempre a qualquer momento e mesmo a eminente morte do Pretinho era como mais uma vez a lembrar-me de que tudo que gostaria mesmo era de esquecer, fugir, mas não conseguiria.

Depois de passar a madrugada pelejando com o cachorro, logo pela manhã combinei com Yolanda e segui para o veterinário. Luta, peleja, enlaça, arrasta e coloca no porta-malas do carro. Pretinho revira os olhos, já delira, tá mal, tá feia a coisa.

Fecha a porta, acelera, contorna o balão da saída do Comper, entra na BR-020, joga o carro na descida, procura o cigarro pelo painel do unozinho, desliza até o córrego, Pretinho solta um uivo de dor… bafeja.

— Tamo chegando… tamo chegando!

Enquanto a atendente preenchia a papelada, Yolanda entra visivelmente abalada… “que coisa, Amore!”.

E mais uma vez parecia que era tudo tão assim…

— Cadê ele? – perguntou enquanto seus braços me envolviam numa cumplicidade louca. Catártico, tudo numa telúrica total até o veterinário abrir o consultório e pedir para entrarmos.

— Onde está o animal? O que houve?

— Ah… sei lá, desconfiamos que ele deve ter pego alguma doença; baba, tem espasmos sem fim, não tá comendo, tá ruim, melhor você vê… tá lá fora no carro. – emendei.

— Eu acho que ele deve ter mordido algum rato no quintal. Vivia solto no quintal a noite inteira – arrematou Yolanda.

O veterinário levantou e nós três saímos na direção do carro. No caminho um ajudante se incorporou ao pelotão. Outra luta, amarra, Pretinho arrisca as últimas tentativas de se defender, tem medo, tem dor, o ajudante arrasta as patas traseiras, segura, eu pego pela frente, Yolanda pede para termos cuidado, o animal geme, corre com ele até a maca, onde é despejado. Yolanda morre de pena do bichinho. O veterinário olha atentamente, examina, levanta a orelha, Pretinho parece entender que ajuda chegou. O veterinário aproxima um aparelhinho. Aperta aqui, aperta acolá, Pretinho geme novamente, agora de maneira mais aguda. Yolanda me abraça novamente… vai ser preciso mais um tempinho para sair o diagnóstico.

Saímos, caminho pela lojinha de pet que tem logo ao lado e que faz parte da Clínica, procuramos uma mesinha, sentamos e conversamos.

— Putz Amor, um gasto a mais! segura a facada!?

— Ai ai, Amore! Pretinho… suspira Yolanda.

— Difícil! – desaba.

— Vamos ver o que médico vai falar! – diz por último. Paira um silêncio; ela quebra o gelo:

— Não tinha que está na escola?

— Só depois das 10h30, hoje os dois últimos horários!

— Então como a gente vai fazer?

— Yoyô’s, eu acho que não tem muito o que fazer a não ser esperar!

Esperar. Palavrinha maldita que a todos deixa aflito. Não conheço um que goste ou saiba esperar. Ainda mais dependendo das circunstâncias… Tic, tac, tic, tac, tic, tac, tic, tac, definitivamente não conheço um! Espera… espera… o tempo por fim avança, o veterinário chama-os de volta.

— Olha que eu pude ver é que ele tá bastante judiado!

— Judiado? Como assim?

— Cadê a carteirinha do Pretinho? – indagou com uma certa autoridade.

— Carteirinha? – retrucaram ao mesmo tempo.

— Sim, a que tem o registro das vacinas… blablás blablás blabás…

Putz, ninguém cuidava legal do cão. No entra e sai do corre-corre. Só quando ele abanava o rabo ou pulava no quintal se esfregando pelas pernas do pessoal da casa que um ou outro lembrava de dar água ou despejar mais comida pra ele. Fora isso o cão era desregrado, não tinha rotina a não ser a de ser um filho de cão.

Yolanda ficou arrasada. Tanto que ela tinha advertido: “eu não tenho tempo pra cuidar de bicho…”, mas a insistência dos filhos e a minha cumplicidade amoleceu seu coração e ela acabou aceitando a vinda do Pretinho.

Que coisa, mais uma lição, é preciso cuidar… Merda, nem eu nem os meninos cuidavam… outra bronca, a educação dos filhos… mesmo sendo professor ajudava muito pouco com a educação dos meus filhos e dos filhos da Yolanda. Acho que tava mais preocupado ensinando os filhos dos outros na escola, praticamente diariamente, que sentia as coisas mais simples da vida me escaparem com os minutos, as horas, os meses, anos, décadas… e assim era a sensação que vi virar o século e o milênio junto comigo.

— Olha, assegurou o médico, podemos tentar reanimar ele. Vamos aplicar umas vitaminas, mas a Pavo virose não tem muita chance de cura, não! – sendo eufemístico… para não ser sarcástico.

— E o que o senhor acha melhor fazer? – perguntou Yolanda diante do meu silêncio.

— Tem um menino aí que nesses casos agente aplica uma injeção letal e ele recolhe e leva…

— Leva..?

— Sabe… por aqui não tem cemitério de bicho! Aí no caso… ele faz o serviço e vocês não precisam se preocupar com o resto.

— Resto…? Como assim?! – Falei como a sair do transe.

— Calma, Daniel! – interfere Yolanda. E se o senhor tentar reanimar o Pretinho..?

— Como você havia me perguntado antes, a injeção letal fica R$ 250,00. Ele não vai sentir dor! Mais o serviço do menino, tudo fica R$ 350,00… mas dá pra fazer até por R$ 330,00.

— E se o senhor tentar reanimá-lo? – voltou a indagar Yolanda.

— Aí com o atendimento, nós vamos dar um banho nele, que ele está todo sujo, defecado, com o pronto atendimento, as injeções de vitamina e essas coisas fica tudo R$ 200,00.

— Putz… isso tudo, doutor? – fala de novo.

— Então faz assim, o senhor faz esse procedimento que a gente espera e leva o Pretinho pra casa. – arrematou Yolanda.

Lá fora, enquanto espera de novo, Daniel volta a falar.

— Porra Amor, esse cara é um açougueiro! E caro! Porra… como é que vamos fazer? Pior que tô sem nenhum agora. Vamos rachar mais essa… E se ele piorar ainda vamos morrer em mais uma grana…

— É essa injeção… morro de pena do Pretinho… Mas vamos levar para casa. Qualquer coisa a gente enterra no quintal.

— Que é isso, no quintal?

— Você nunca enterrou nenhum animal seu, não?!

— Putz!…

— No quintal da minha casa tem vários cachorros e gatos enterrados. Qual é Amore? Eu não vou pagar para jogarem o Pretinho num lixão por aí!

— Você tem razão! – ajuizou Daniel:

— Vamos levá-lo pra casa!

Amanhã continua…

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Sobre mphaickel

Professor e escritor, autor do romance "O Cinza da Solidão", na sua 3a. edição, publicado pela Thesaurus Editora.
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