Quem vai querer comprar bananas? Capítulo 3

crise-mundial1Que porra, que bosta, que merda, já algum tempo as coisas não iam bem! Precisava realmente mudar o jogo, fazer a virada, tava louco para correr pro abraço, mas parece que a jogada saía para escanteio, tudo agosto ainda em março, tempo instável, chão vermelho, idade avançada, só incertezas diante da vida, das pessoas, vinha acumulando, blablás, blablás, blablás… uma ladainha que guardava comigo, que no fundo sabia que não me ajudaria em nada, outro blablás, blablás, blablás… também não dava mais para tacar o “que se foda!”, muito embora o país tava uma merda, o mundo tava uma bosta, os norte-americanos impondo restrições ao dólar… guerra, grana, filhos crescendo, cachorro mordendo as coisas, para logo em seguida aparecer morrendo, até aquela cervejinha tinha sido posta de lado em defesa da multa, éramos todos filmados nos bancos, shoppings, avenidas, catracas, alavancas, sistema, concursos… Então reuniões, afazeres, arroz para por no fogo, plantas para aguar, leituras atrasadas, meninos, bichos, ufa… estava cansado e embora o cenário fosse bem atrapalhado e complicado era esse mesmo o qual estava inserido, enredado, e por mais que absurdo, a pergunta martelava a todo tempo: como é que vou sair dessa?

Na escola, ao chegar depois de deixar o Pretinho em casa, já na entrada o diretor fala:

— Precisamos conversar. O senhor tem um tempo? – e crava um olhar de reprovação, enquanto o acompanho silencioso até a sala da Direção.

Na sala, depois dele se arrumar na cadeira, fazer um muxoxo, falseando um cacoete enquanto fingi arrumar as coisas espalhadas em sua mesa, resmunga:

— Sabe professor, precisamos conversar. Uma professora veio me dizer que estava num bar, na Asa Norte, quando viu o senhor vendendo livros com outros três alunos desta escola. Queria lhe dizer que nesta escola não somos de acordo com esse tipo de coisa… Da forma como ela me falou, fiquei preocupado, o senhor sabe, em Brasília, com essa história de melhor salário de professor do país, essas coisas assustam. Tudo vira notícia, e acho que não fica bem, o senhor com esses meninos, que são de menor…

— Alto lá! – bradei indignado.

— Diretor, eu não sou louco! De quem essa professora falou, é o Max, Rafael e o Logan, todos tem entre 18 e 20 anos.

— Bom, mesmo assim, o senhor conhece os pais deles? Eles estão de acordo? Eu não quero meu nome envolvido em escândalo, por favor?! – falou por último demonstrado um certo afetamento ou desdém.

Muitas coisas se passaram na minha cabeça. Respira, mesmo num torvelinho de emoção, comoção, compaixão, recomecei falando:

— Fagner, esses alunos tem mais de 18 anos, e me procuraram na escola, perguntaram-me como poderia ajudá-los. Não sei se você sabe, Max acaba de ser pai, engravidou Luana, que estuda nessa escola no 1 A. Mora com os pais e mais 4 irmãos, numa casa de 2 quartos, aqui na AR 08, uma quadra conhecida por ter várias bocas de fumo; Rafael, é quarto filho de uma mãe que acaba de ter mais um filho aos 44 anos de idade. Ele não se entende bem com o padrasto, que tem praticamente a mesma idade dele e uma irmã com problemas de saúde sério; já o Logan, pelo que me contou precisa urgentemente trabalhar pra vê se consegue sair de casa e ajudar a mãe, que está cansada de apanhar do pai. Não é da minha índole, explorar a boa vontade das pessoas, e sim ajudá-las.

Um silêncio pairou. O diretor Fagner se remexeu na cadeira. É o senhor sabe a professora me falou isso eu…

— Pensei que o senhor sabia. Me senti meio que na obrigação quando eles me procuraram e perguntaram como poderia ajudá-los?

Engraçado que pelo que me disseram sempre estudaram nessa escola. Chegaram no terceiro ano, praticamente o último ano ginasial, e não sabem fazer nada que possa servir de ajuda para ganharem dinheiro! Precisam ajudar em casa, sofrem com problemas de autoestima, são alvos potenciais do narcotráfico. Na ocasião unica coisa que me veio à cabeça foi levá-los comigo numa campanha de incentivo à leitura que faço e que idealizei para promover meu livro e de outros escritores amigos meus. Como vou à noite nos bares e cafés da cidade anunciando os livros de poesia pensei, poderia lhes dá uma gorda comissão. Não há nada de errado em vender livros. Não vendemos filmes piratas, nem produtos ilegais. Levamos conhecimento, cultura, inflamamos a massa a pensar, refletir sobre o próprio quintal. A ideia principal é praticar a economia solidária, fazer o dinheiro circular entre a gente, chega de dar dinheiro pro estrangeiro que vem aqui e domina a mídia nos empurrando a cultura dos best-sellers goela abaixo. Com história que não tem nada a ver com a nossa realidade, de neve, no Brasil não neva; de vampiro… no Brasil não tem vampiros… nossa cultura é boi-tatá, é saci Pererê…

— Chega! Já entendi. Mas de qualquer forma eu vou mandar um comunicado para a família destes jovens… – falou com certa empáfia.

— Sr diretor, posso lhe falar mais uma coisa?

— Sim! – falou pregando os olhos.

— Por vezes, me sinto um professor de verdade quando estou com eles conversando, aconselhando, junto, me sinto mais útil assim do que quando estou em sala de aula lecionando, tentando mostrar o que está por trás do conceito de sujeito oculto!

— Entendo… – falou de maneira vaga – e depois acrescentou: Bom se é assim, eu avisarei os familiares. E o senhor fique atento, hoje em dia não é bom a gente ajudar, depois ainda vão querer lhe processar… fique esperto!

— Estarei! Posso sair? – falei com o estômago embrulhando.

— Vá, vá! – retrucou o diretor como se a enxotar-me dali, balançando com a munheca mole no ar.

Amanhã continua…

Anúncios

Sobre mphaickel

Professor e escritor, autor do romance "O Cinza da Solidão", na sua 3a. edição, publicado pela Thesaurus Editora.
Esse post foi publicado em Folhetins Literários e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s