Quem vai querer comprar bananas? Capítulo 6

brasil-lutoMotor raja… mais um quebra mola, mais outro quebra mola. A vida reproduz o trânsito no dia-a-dia. Um quebra-mola é mais um desafio, uma coisa atravessada, e a todo momento atravessava uma coisa nova, a cada rua, a cada caminho, que entrava, agora era a vez de pegá-los na escola.Para. Espera: tic, tac, tic, tac, tic, tac… chega Gabriel:

— E aê Daniel? – acena com o sorriso maroto.

— Viu a Ana?

— Tava por ali, d’agora!

— E o Caio?

— Não vi! E ai, dá uma carona até a rodoviária?

— Vamos lá… vê se encontra os meninos e vamos nessa! O Pretinho morreu…

— Fala sério?!

— Sério!

A volta para casa no carro. Todo mundo se ajeita. A Ana tem uma amiga que também quer carona até a Rodô. Aperta. O carro chia, a escola fica lá embaixo, tem uma subida enorme. O carro apresenta seus barulhos, seus tremeliques, lembro que tem que fazer a manutenção, mas ainda está a espera de uma grana que ainda não veio, reza baixinho pra que o carro chegue lá encima, depara-se com um ônibus escolar cerrando a embreagem na subida… devagar vai um carro antes, o ônibus avança, ele também. As crianças se provocam, se xingam, se cutucam dentro do carro, ele observa de rabo de olho. É preciso estar ligado o tempo todo. O ônibus adianta-se mais um pouco. O carro apaga. Ele puxa o freio de mão, dá a partida. A galera se liga, o motor reage a acelerada… anda mais um pouquinho. Agora vai parar de passar carros na transversal. Que nada! Cerra a embreagem, segue pari passo atrás do ônibus, não dá muito pra vê quando enfim parte feroz e desumano o ônibus. Corta a transversal. Ele avança e para. Espera, os meninos voltam a falar todos ao mesmo tempo. O carro rateia, ele acelera, finalmente parece que vai parar de vir carro de todos os lados… ele então arranca, e segue. Os meninos seguem conversando no carro. Não tem porque correr, a via é de 40km, mais a frente tem um pardal, desacelera, deixa o carro correr, o pardal fica para trás, logo à frente é a parada que fica enfrente à Rodô. Para, depois de muito empurra, desova os amiguinhos. Mais à frente um sinal que parece fazer questão de fechar. Espera: tica, tac, tic, tac, tic, tac, passa uma senhora, um cego batendo bengala segurado pelo braço por um estudante. Ele fala que falta o sinal sonoro, como é que o cego pode atravessar com segurança se não tiver alguém por perto com boa vontade de ajudar. Olha para Ana e para o Caio, ambos com os fones enterrados nos ouvidos. Percebe que está falando com o vento… depois de algum tempo, Caio tira os fones do ouvido:

— Que? – querendo assim voltar a orbita.

— Nada! – responde Daniel.

Em casa, com Yolanda, depois de comer, enquanto troa pelo quarto o som do jornal planejam o sepultamento do Pretinho.

— Não acredito que você nunca enterrou um bicho de estimação! Daqui a pouco vamos ter que enterrar o Pretinho, você me ajuda?

— Claro!

— Eu nunca quis bicho por isso! Esses meninos não tão nem aí pra nada! De lascar… Não botavam nem água pro animal… comida? o bicho morria de fome… eu que botava comida… merda, Amore! Merda! Eu não sei como meus filhos são tão escrotos?

— Calma, Amor… são assim mesmo, nessa idade não tão nem aí pra porra nenhuma!

— Carambas, amore, não justifica…

A tarde chega, começa o vídeo-show, os dois se levantam, já correm pelo quintal Caio e Gabriel, Aninha tá plugada na internet, Daniel vai atrás da enxada, procura pela pá e nada… começa a ficar puto, Yolanda chega junto, invoca os meninos a carregarem Pretinho até o quintal. Os dois se aproximam, brincam, escarnecem do pobre cão, arrastam até o local onde será enterrado.

Começa a abertura e o calvário. Força a terra, abre um buraco. Joga água com o balde, pega mais, a essa altura, Pretinho já está duro, a língua roxa, os dentes arreganhados pra fora… pobre Pretinho, os meninos se afastam, Yoyos mostra as mãos calejadas, Daniel termina de jogar mais terra por cima. Difícil, tudo muito difícil, porque a vida parece que gosta de ser é assim… muito louca e imprevisível!

Se fosse improvável seria outra coisa; melhor, a vida era mesmo mui loca y imprevisible.

Amanhã continua…

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Sobre mphaickel

Professor e escritor, autor do romance "O Cinza da Solidão", na sua 3a. edição, publicado pela Thesaurus Editora.
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