Quem vai querer comprar bananas? Capítulo 9

capa_o_amor_de_marianoCaminha, força sempre, logo mais avista a comercial. Vem por dentro, agora já não é mais árvore, é carro, sinal, mesa, gente falando, neon, fumaça; agora a coisa muda de figura, vira trabalho, e trabalho é uma coisa séria, mas também é mais, uma ação que requer planejamento, propósito e isso faz um diferencial e é esse diferente que atrai, que distrai, que encanta, ou então atende a um desejo, e para tanto temos que estar preparados, Daniel chama atenção dos alunos, que sigam o mestre, que vendam muito mais que o papel, que vendam as ideias por trás das palavras, que suas missões serviriam para humanizar, incentiva a prática da economia solidária, a circular os bens culturais, falemos de nossa aldeia, dos nossos problemas, das nossas realidades, do próximo; e não de de neve, de vampiro, de magias ou bizarrices: “Universal é teu quintal” – lembra… ” e o nosso quintal é tupiniquim” – acrescenta.

As conversas aumentam, a noite começa a mostrar a cara, ele vai para a terceira etapa da jornada. Recordando, pela manhã na escola, de tarde, Editora, de noite, ronda pelos cafés divulgação da sua obra.

Ninguém é sozinho. Além dos seus livros, leva sempre o de outros autores conhecidos, amigos, e mistura além disso livro de outros autores clássicos universais. É preciso oferecer um bom serviço. Ter variedades, o cliente é exigente para livros, quando os lê.

Marx e Rafael se embrenham na noite, sentem-se veteranos, um dá força pro outro e seguem avançando pelas mesas… “Boa noite! Livros… Campanha de Incentivo à leitura: em vez de um filme pirata, que tal ler um livro legal? Dos autores da cidade?”.

Primeiro causa espanto, depois as pessoas passam a gostar da ideia, livro fascina, é a proposta de conhecimento, o conhecimento não ocupa espaço, desperta, mexe, provoca, os livros são depositados na mesa, e daí partem para outra mesa, novamente a abordagem, a estratégia, a possibilidade, a reação inesperada, a cara de surpresa, o tempo, o processamento, a informação, uns evitam virando a cara, outros param, escutam, algumas vendas são realizadas, outras ficam na promessa, a turma se dispersa, depois se encontra, se reúne, dão o “partiu, feroz e desumano”; outro bar, outro café, novas pessoas, novas luzes, copos, talheres, guardanapos, beijos, abraços, demonstrações de afeto de casais, fome, mastigação, as pessoas devoram, leem, passam folhas, acendem cigarros, batem cinzas, levantam copos, tudo muito colorido, fumaçado, muita música, risadas, à noite todos os gatos são pardos, as pessoas se misturam, se conhecem, se apaixonam, Rafael volta encantado com uma mulher que conhecera a pouco, ainda mais que comprara um dos livros do seu bolo. Comemora, empurra Marx, contorna aqui, avança para outra mesa, fala, gesticula, recebe atenção de pessoas que jamais sonhava ver, homens, mulheres, jovens, adultos; festeja, vendeu mais que Marx e que o Logan, com certeza, é o mais articulado, desinibido, metido a galanteador:

— Dani, aquela professora dá mole pro senhor! Tá pegando? – indaga com gozação.

— O que é isso! Primeiro que não sou Dani, meu nome é Daniel! Segundo, sou apaixonadão pela Yolanda… não faria isso!

— Frescura, professor!

— Frescura coisa nenhuma! Quando a gente ama…

— Frescura é esse negócio de Dani… gosta, não?!

— Claro que não!

Os dois riem… a noite segue, Logan começa a se soltar, já vendeu uma graninha também, todos estão alegres, a noite foi boa, de repente Daniel dá o grito, se junta aos demais:

— Pesquei, pesquei…

— O quê? O quê?

— Um peixinho! Uma garopa! Cenzinho… Todos se animam.

A noite avança rápido, já já é 22h30, já começa a ficar tarde, a jornada tripla cobra o cansaço… ele já vai ficando um pouco mais atrás, deixa a meninada empolgada desenvolver… vão os três, ele confere os livros, organiza o estoque no porta mala do carro, sai por ali, enquanto os três continuam o trabalho pela comercial Daniel desgruda um pouco os olhos e vai na direção do supermercado 24h, compra pão, suco, queijo fatiado e mortadela; a galera vai passando, Bloco A, Bloco B, Bloco C, conhecem a rota, ali Martinica Café, Casa de caldos, Casimiro, Terapia, Beirinha, 2 Clichê, Distribuidora, Raízes, Senhoritas, e assim vai. Escolhe bandeja, entra em fila, paga, aproveita e troca o dinheiro, ajeita o troco, volta pro carro, espera a turma regressar, tá cansado, vai propor arrego, oferecer comida, pausa antes de seguir. Suspira, olha pro céu, a noite está estrelada, a lua vai alta… procura a turma com os olhos, pega o celular e liga…

— Cadê vocês? Vão demorar ainda?

— Tamo terminando… anuncia. Ta’moindo… o sr tá no carro?

— Sim, tem uma merenda aqui. – suborna para a galera voltar mais rápido.

— O que é?

— Venham logo ou vou comer tudo sozinho!

— Ta’moindo!

Esse ta’moindo só falta matar Daniel de raiva… pensa em falar, mas Logam é mais rápido e desliga o telefone. Respira antes de começar… relembra o dia… os problemas, as dificuldades superadas, as alegrias, a saudade de Yolanda, relembra sua voz, seus carinhos, companheirismo, sente mais vontade de terminar logo e pegar o carro e acelerar para casa. A turma volta falando muito e com cara de aborrecimento. Rafael fala alto e gesticula, Marx parece socar o ar de revoltado e Logan, mais atrás balança a cabeça ainda sem compreender. Deu alguma merda, pensa rápido Daniel… Tudo parece tão difícil pro dia acabar, ainda que seja avançada a noite. E não acaba…

Amanhã continua…

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Sobre mphaickel

Professor e escritor, autor do romance "O Cinza da Solidão", na sua 3a. edição, publicado pela Thesaurus Editora.
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