Quem vai querer comprar bananas? Capítulo 10

O comércio. Um verdadeiro bicho de sete cabeças. Tão antigo quanto a aurora do homem. Em um mundo pós-loucura ainda assim se mantém de pé. Ícone de troca, moeda: tanto compra-se como vendem-se serviços e produtos. Atualmente compra-se e vende-se de tudo, ou quase tudo… muito mais que fé é preciso jogo de cintura para passar pelas mesas e oferecer-lhe doses de poesias, contos, romances, filosofia, rebeldia, e compreensão. Ninguém vende só o produto. Vende mais, não são só livros, são conselhos, exemplos, despertar e anoitecer de espíritos inquietos, que ressoam por séculos, como se a gritar por justiça social, respeito, mais Amor, sementes em ideias… “óh bendito que semeia livro”… mas esse mesmo livro além de adeptos, têm também inimigos, tem indiferentes, desinteressados, e como tudo na vida é preciso procurar pelo seu público, seus pares, e são muitos, são tantos e aos mesmo tempo é ninguém, tem hora que vai, tem hora que não aparece nada… mais duas três mesas, outro bar, outro café, e um novo simpatizante se encanta, compra, fica teu amigo, parece se importar, apoiar, e novamente se renovam as energias, e tudo tão assim, nada é fácil, perderia a graça, é preciso seguir adiante, parece relaxar, para novamente desesperar, forças, energias trocadas, olhares, histórias e amizades.

De um tudo acontece em noite de lua. Naquela noite não ia ser diferente… o alvoroço foi o ocorrido com o Marx, praticamente baculejado por um cidadão completamente bêbado que cismara com sua cara e o acusava de ter desaparecido com seu celular. Rafael ainda interveio: “Peraí, o sr. é polícia? Se ele tá dizendo que não pegou seu aparelho, porque tem que apalpá-lo?”

O clima ficou tenso, o homem reclamava o sumiço do aparelho, tanto Marx como Rafael titubeavam com o inesperado, o atendente chegou perto, até que a mulher do “Orelha”, desconfiada da vacilação do marido acalmou os ânimos dos presentes. Os dois saíram de volta para o carro, a noite não tinha fechado bem ainda.

Era mais ou menos assim a história toda que me contaram, mas fiz questão de tirar a limpo, então voltei à cena, me apresentei, olá, sou Daniel, professor e incentivador da leitura por acreditar no poder transformador que a educação tem, esses são meus alunos, Marx, Logan e Rafael. O que aconteceu? Eles me contaram que tinha dado um xabu aqui com vocês…

— Não aconteceu nada! – já está tudo bem. Meu marido perdeu o celular, coincidentemente quando os meninos estavam vendendo livros aqui na mesa.

— Como posso chamar pelo seu nome?

— Andréa! Me chamo Andréa.

— Andréa queria deixar meu telefone com você para que você me avise mais tarde quando achar o aparelho do seu companheiro. Tenho certeza que meus amigos não fariam uma coisa da qual viriam a se envergonhar!

— Me desculpe, meu marido bebeu demais. Acabou se excedendo!

— Lamento muito o ocorrido. Como é o nome do seu marido?

— João! João Andrade… ele é do bem, só bebeu um pouco mais do que devia…

— De qualquer forma quero que anote meu número e me avise assim que achar o telefone. Tudo bem?

— Sim!

João se aproxima, Daniel se apresenta, pede licença para falar, tenta ajudar a encontrar num primeiro momento, João olha pro chão, reclama, procura pela mesa, fica assustado estamos todos juntos ao redor dele, fala alto, esboça uma reação, Daniel vai de cá, vai de lá, ele então manda…

— Carambolas, João! Como você pode acusar sem ter provas? Você viu um dos meus amigos roubando o teu celular?

— Não!

— Então como é que acusas as pessoas assim? Por que cismastes com o Marx? Esse cara aí, é honrado, véi… tá que nem eu trabalhando na noite, não podes fazer isso que você fez não…

— O quê que eu fiz? Diz aí?

— Pisou feio na bola! Tá aí cheio dos goró querendo arrumar cascaria com os outros! Tem certeza que tu não esquecestes esse celular em outro lugar? Tu não fostes no banheiro? No carro? Tu lembras ainda se chegou com o celular aqui? lembra?

— Qualé meu irmão? Eu lembro! Eu tava com esse celular na mão, na mesa. De repente o celular sumiu… os caras tava passando aí… sei lá…

— Rapá…! Tá de carro aí? Num esqueceu nada no carro, não? Não foi lá buscar alguma coisa? Procura isso direito, rapaz, antes de fazer um lance escroto desses…

Nisso por trás, enquanto Daniel e João jogam a capoeira da esquiva do bate e assopra, Logan segura Marx, que Rafael tá louco também, mas ficam só por perto, não agridem, indignados observam, vai daqui, vai dali, vamos embora.

Voltam pro carro, todos falam ao mesmo tempo. Putz, refaz, respira, pausa antes de seguir, e como seguir? climão, calma, senta todo mundo na pracinha, traz o rango, cada se serve, come, lancha, fala, reflete, Rafael comenta:

— Cara filho da puta, professor! Foi encima do Marx… carajos…

— Esse filha da puta entrou numas porque eu sou preto! Me dá uma raiva nessas horas, professor!

— Sai dessa… o cara tava bêbado bosta! Ia cismar com qualquer um, ele fez foi perder o celular, deu mole… Cara mané!

— Porra, e bote mané nisso! Mas dá raiva!

— Cara o importante é você está bem consigo. Ter a consciência tranquila, tu não roubou celular, então foda-se!

— É cara! Não encana, não alimenta o ódio. Cara é um filho da puta, éhh! Tem que se ligar, fica bêbado fazendo merda… vai se foder qualquer hora dessa! Bota, fé?

— Vamos lá… vamos lá… desanima, não! Come aí…

— Gostei professor, o senhor encarou o cara, eu não sei ser sangue frio assim!

— Qualé… o cara estrapolou, tem que ouvir também, aí foi um tal de blablás blablás bláblas e tals e tals e tals…

Porra clima fechou. Marx tava indignado, puto, cheio de ódio por dentro. Comércio, noite, já tinha ficado tarde, a noite avançara, quase meia noite, meia hora para zerar tudo.

— Vamos nessa, vamos subir a serra? A noite foi-se vamos comendo no carro, no partiu feroz e desumano!

Realmente noite louca! Nunca tinha havido algo assim! Situação desastrosas, o álcool destrói… merda, mastiga e engole. O carro sai pianinho todo mundo se arrumando e dividindo o que sobrou do pão… rapidamente estamos passando a ponte do Bragueto, vem a subida, a descida, sobe a serra, a essa altura, Rafael está no telefone celular, Marx no banco de trás conversa com o Logan e no carro toca uma música instrumental. Encosta no Colorado, para abastece, trintão, muita grana pouca gasolina. Porra tá foda! Foi boa parte do lucro que é pequeno, por volta de 30 e 40%, no final pouco mais de 8%. Livro. O ganho maior é a formação de público, é a capacitação através da leitura, ou melhor da literatura, que encanta, seduz, ensina, prepara, não há quem não se reflita, se aproxime ou distancie do personagem, da história, conscientiza, humaniza, desangustia, nostalgia, faz sonhar, faz enxergar a realidade, no fundo é um transfusor de mensagens, cores e sensações. Tentam desvendar os sentidos e os sentimentos, nos teletransportam no tempo, no lugar, no agora.

Não! É certo, o livro ainda tem uma sobrevida de mais 50 anos! A qualidade da leitura essa sim, cada dia tá desaparecendo mais… Sinais dos tempos, mais amor por favor… leitores, leitores é preciso preparar o cidadão e a leitura ainda é a forma mais barata de preparar uma Nação, pela Educação. Mas não, o país é covarde, a política se alimenta da miséria. Pagamos a gasolina mais cara do planeta, e somos auto-suficiente em petróleo. Temos uma das maiores costas litorânea, ótimo para geração de energia limpa, renovável, mas não, sofremos o risco de apagão ao longo dos anos, de mandato em mandato, ainda dizimamos índios e florestas para desviar leitos de rio para construção de hidrelétricas. Que dizer? A noite é longa e já começa o processo da formação do dia.

Punk, silêncio, climão no carro, desliga o rádio, contorna o balão do Colorado, pega no rumo Fercal, contorna, acelera, apruma e joga na banguela e sente descer, todo mundo parece afundar no banco do carro que adentra pela estrada na sinuosidade controlada, maneirar, mais ali um pardal, oitenta, agora não adianta muito correr, o mais importante é chegar bem em casa. O pior já passou, no final todo mundo faturou uma graninha, e isso ai, deixa o carro nos levando direitinho…

— E amanhã? De novo?

— Sim! Vamos!

— Por mim de boa! E tu, Marx?

— Já estou mais tranquilo, vamos sim!

— Isso aí! Vamos então, mesmo esquema.

As coisas caminham finalmente bem de novo. Telefone toca. Daniel atende:

— Alô?! Sim, sim, lembro. Andréa? Achou? Ah, que legal… e tava aonde? Debaixo do banco do carro!? Eu sabia! Tá, tá legal! Eu aviso, melhor… eu vou passar o telefone para ele. Só um momento, Marx… atende, é pra ti!

— Alô, Marx? Desculpa por tudo, meu marido achou o telefone…

— Ainda bem!

Sim, agora parece que a noite finalmente terminava e terminava bem! Finalmente, depois de deixar todo mundo em casa, em Sobradinho II, chegava em casa também.

Amanhã continua…

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Sobre mphaickel

Professor e escritor, autor do romance "O Cinza da Solidão", na sua 3a. edição, publicado pela Thesaurus Editora.
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