Quem vai querer comprar bananas? – Capítulo 11

Dia longo, atravancado, cheio de idas e vindas… descansar, tudo que eu queria era isso, descansar… mas quem disse que se consegue? Em casa ainda tem mais coisas para fazer, roupa para pôr na máquina, lista do que fazer no dia seguinte, preparar aula, planejar trabalhos de grupos, o que era legal também, trabalho de grupo, espanhol através da culinária… um tantos pratos saborosos, comidinhas fantásticas, à medida que os grupos vão apresentando sempre preparam o quitute e trazem para sala de aula… aulas de espanhol também não é só culinária, tem música, poesia, debates, simulações de acontecimentos cotidianos, como ir aos Correios, ao Cinema, adoro simular que estamos na praia, acho mesmo que é só saudades do mar. “Na vida tudo se resolve com água e sal… ou com suor, com lágrimas ou banhando-se no mar”. E era trabalhando e suando muito que tentava superar o cansaço do dia; sempre seguido de reclamações, como se a ditadura do cartão de crédito urgisse a metros de distância de mim… no fundo, de todos. Todos no sentido de comunidade, sociedade, nação. Aquela coisa de estar inserido no contexto ou tessitura, ou pelo menos se encontrar sob o comando de leis, normas, sendo regido por horas e recebendo ou pagando por elas.

Sobra muito pouco tempo, estamos todos o tempo todo a reclamar do tempo que é pouco e quando nos sobra um tempinho que seja queremos descansar… um tic, tac, tic, tac frenético que não para e se parar é porque algo vai mal e precisamos descansar para estar bem o tempo todo. Que assim seja, descansar, eis a palavra da noite.

Arruma papel, recolhe roupas espalhadas, tomar banho, lembrar os curumins de escovarem os dentes, liga a tv, desliga computador, liga ventilador, desliga tv, liga rádio-relógio, ouve música, lança mão de mais um livro debaixo da cama, lê duas, três poesias curtas, comenta, Yolanda responde, a noite adentra a madrugada, ela fecha mais um livro… liga computador, desliga a música, teclado nervoso, enquanto ela registra mais um dos apontamentos necessários para a construção da sua tese divaga, pensa, parte e reparte, duvida, suspeita, vai e volta, investiga, ninguém percebe isso, o filho bate na porta… a filha também quer atenção, ambos adolescentes e não estão nem aí para nada disso, nem Daniel, no fundo tá longe, relembrando o dia, ufa descansar, lembra? essa era a palavra, logo logo é dia novamente… os meninos tiram a mãe do quarto, passa da meia-noite… cochila, vacila os minutos e como num passe de mágica apaga, vigília tudo vira colagens, caleidoscópio, vem o rosto dos alunos, o sorriso da mulher amada, a cara levada do enteado, a saudade dos filhos distantes, em um certo ir e vir… suave é a noite!

— Amore e lá na editora?

— Na editora há um portal muito louco que te leva ao trovejamento, revoadas, arvoredos: “vos que aqui adentrais, perdoai esta bagunça!”… livros aos borbotões, espalhados por toda a mesa, agendas, calculadoras, telefones, e mais máquinas, geringonças , fotos, álbuns, pilhas, delhas e pardelhas, discursos, palavras duras, ideias mágicas, doçura mesmo que acalma, que nos faz seguir cantando baixinho um hino de vitória, como se molhássemos todos os dias uma plantinha, abríssemos outras portas; mansinha Dona Iris cataloga, identifica, olha encantada com cada livro, e nos leva pelo número até a estante, organiza, aproveita e ajeita um vaso e também fala da flor e tem mais, nos faz jovem incansável guerreiro articulador, até um telefone que toca, um embaixador que se anuncia, o comendador aproveita e se estica indo até a ante-sala onde está o cafezinho, duas gotinhas, observa os armários da Nasa que estão ali, que guardam roteiros, romances, poemas, aventuras, histórias e ideias, thesaurus, volta e senta novamente entra com ele, o embaixador de Cabo Verde, danam-se a falar, enquanto isso na sacada um poeta pita um cigarrim e ensaia mais um texto que fala de música para ser lido na rádio. É o Taveira, voz gotejante, de gosto refinadíssimo, poeta de versos e trovas, revisor, palestrante e mais um da plêiade que ajudou a fundar a ANE.

O embaixador conta sua história de guerrilha, parece depositar com palavras seus fuzis, seu cansaço, suas derrotas e vitórias, melhor: suas mudanças e contudo vai aparecendo assim as pilhas de livros sobre a mesa, os dois se olham, ajeitam as lentes, a língua os une, respiram e conversam, a vida prevalece, até que os pássaros que habitam nos ponteiros do relógio de parede gorjeiam, quinze horas é a vez dos sabiás, se não me engano… Às dezesseis é a vez de outro passarinho, o galo de campina é reproduzido pela maquinaria do relógio, que hoje nem é mais de corda, não tem corda, funcionam até a pilha acabar, ou darmos por conta que ele não assusta mais, por vezes vencemos o tempo, não temos tempo a perder e estamos perdendo tempo, o tempo todo; ganhamos do tempo quando construímos, quando da diáspora, do transitório, do eterno ir e vir… ganhamos do tempo quando relativizamos, quando nos solidarizamos com o Planeta, quando vemos no outro a nós mesmos, como fazem as árvores que nos observam quando passamos… quem passa apressado somos nós. Elas são as testemunhas vivas da luta do embaixador em campo minado.

Entre sonho e vigília a noite adentra, Yolanda volta quietinha num pé de vento. Agora os meninos dormem, a casa inteira dorme, é o momentinho que lhe sobra… lê um pouco mais, anota e desliga os “devices”… os dois dormem até que o dia se levanta e com ele de novo o corre-corre; o pão quentinho na chapa, começam as idas, a escola onde trabalha… mais um dia, hoje tem ida também à UnB para a primeira prova da seleção do mestrado. Prova de línguas e interpretação de texto. Mas antes tem que ir para escola e realizar o velho esquema da chamada… na manhã seguinte não teria quitutes, nem músicas, nem poesia, ia ser dia de avaliação geral. Sabe como é, a coisa não tá fácil para ninguém!

Não perca amanhã, mais um capítulo…

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Sobre mphaickel

Professor e escritor, autor do romance "O Cinza da Solidão", na sua 3a. edição, publicado pela Thesaurus Editora.
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