Quem vai querer comprar bananas? Capítulo 12

capitulo12Chove forte. O céu carregado… hard também os pensamentos enquanto aguarda no carro… difícil de acreditar, entender, absorver, encaixar, fosse lá como era, ou sei lá como fosse, vai saber?! Chovia, então ouvia o rádio, baixinho, bem baixinho batia também seu coração, como a gritar o sopro; os olhos que não queriam ver nem enxergar, a boca que nada dizia, só o rádio toca baixo junto com o tamborilar da chuva no teto do carro e parece acompanhar os compassos. Mais com pouco o sol iria clarear a nave, a sirene tocaria, e novamente mais um dia. Por hora só queria ficar quieto, enquanto chovia; catatônico se liquefaz com a chuva.

A rotina, as classes o mantinham ali. Os compromissos assumidos com a vida, família, amizades… O portão automático só agora parece fechar completamente o espaço percorrido. Tudo tão diferente e igual a tudo… com maior ou menor grau… agora adotara o discurso menos radical que nos tempos de faculdade; novamente tudo tão distante da realidade, conteúdos, formas, práticas: aguarda no carro, deixa chover, tem tempo, capaz que com todo esse aguaceiro os alunos não venham: poucos conseguem acordar e sair de casa.

Daniel está ali para o ofício de ensinar, inspirar, instruir, passar adiante, conduzir, ministrar, facilitar, monitorar, recrear, vigiar, passar as horas… chove, tem uma hora antes da aula começar. Um tanto resignado? Não! Como? Encontra-se ali, debaixo de chuva… deseja prosseguir… a chuva engrossa, o vento agita a copa das árvores próximas do carro. Já sente-se um tanto velho para continuar e também para ficar paralisado. A música é interrompida pela notícia da chuva, do trânsito parado na descida do Torto, na Estrutural, na EPNB, na EPIA; mas ele chegou, antecipado ao caos, com a chuva e o vento, para começar a aprender com mais um dia…

Chuva para professores e professoras, para os alunos, para o pessoal da limpeza que começa a andar de um lado para outro, prepara o café, o cheiro acalma, mais um dia, o dia começa. Tudo ali está impregnado de luta, das mais diversas formas, há o conhecimento que prepara o chão, o quadro, anota no papel, apaga com a borracha, refaz os cálculos, copia e reescreve, e que é repassado oralmente, isso ecoa pelas salas, passeia pelos banheiros, ressoa com a sirene, alteia pra depois parecer calar. Passeia daqui pra lá, corre com as crianças de mãos dadas com a esperança, grita pelas quadras e silencia nos olhos, no horror da repetição… mentes e corpos, experiências que extrapolam o espaço demarcado da sala de aula… vai caminhando pelo corredor até o banheiro.

Dia de prova geral para os alunos e para ele também. Mas vamos lá! A chuva passa, o vento passa, os alunos chegam, chegam também os outros professores, sala dos professores, alunos esticam os pescoços pelos corredores, aos poucos crescem os rumores. Deposita na mesa o material, acomoda-se enquanto os rumores e ameaças da prova se espalham e fermentam pelas salas, à espera da sirene, e dessa vez vai ser diferente, ou espera-se, vai ter prova. Com algumas diferenças, a começar com as médias: na UnB: sete; no ensino médio: cinco; média da média de dez, digamos apreendimento médio, mediano, medíocre! Há de se considerar também ambiente, orientação, conhecimentos de que lembrava em sala de aula para os alunos do terceiro ano do ensino médio. Sei lá, o exemplo ainda é a melhor lição. Então me esforçava dentro e fora da escola para estar sempre a buscar o melhor e para fazer o mestrado precisaria eliminar as quatro etapas do edital lançado pelo departamento. Aquele ano não tinha deixado passar em branco, ficou ligado, acompanhava tudo, leu boa parte da bibliografia indicada, uns 30 a 46 livros de teoria pesada, intercalando e dialogando, uma polifonia de autores mais modernos, contemporâneos, mas velhos, em busca da curvatura do cânone… a prova de língua seria só a primeira: o rancking até que começa concorrido, são pouco mais de 46 vagas para um total de 88 inscritos para passar no tão desejado processo seletivo. A aula hoje era pela manhã inteira. A prova na UnB tava marcada no auditório da faculdade de tecnologia para as quinze horas. Dava tempo de ir em casa, comer, pegar o dicionário de espanhol e testar seus conhecimentos também; testaria a dos seus alunos e seria também avaliado, no fundo se ria e gostava da situação… frio na barriga, nervosismo, apreensão, em ambos, em todos.

Parece então que depois do soar da chamada, a velha verificação atrás das colas… vai aqui, vai ali, puxa cadeira mais pra frente, empurra cadeira mais para trás, troca aluno de lugar, manda guardar tudo embaixo da carteira, que encima só lápis, caneta e borracha; trouxe dessa vez sua arma secreta, uma coisa simples, mas que serviria para deixar todos mais apreensivos, principalmente os “pescadores”, que sempre tem numa turma grande, com mais de cinquenta alunos como era a turma do terceiro ano F. Passeia pela sala e anuncia:

— Sem essa de quem não cola não sai da escola! Se eu pegar pescando ou perguntando um para o outro, é zero na hora!

Continua amanhã, mais um capítulo…

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Sobre mphaickel

Professor e escritor, autor do romance "O Cinza da Solidão", na sua 3a. edição, publicado pela Thesaurus Editora.
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