Quem vai querer comprar bananas? – Capítulo 13

mikeyUfa, todos sentados e quietos, agora podemos começar a respirar, por hora só espiava, de pé, ao lado da mesa, escondido por trás dos óculos escuros. Um aluno mais metido a engraçadinho comenta:

— Tá ligado mesmo, professor?

— Vai fazer a prova caladinho aí ou quer ir fazer lá na Direção?

Por um momento todos parecem se sentir desafiados, os poucos que resistem também se aquietam. Silêncio, suspirar, olhares de dúvidas, de náufragos, de esquecimento, abandono, branco total, a toda hora um se ajeita na cadeira, se mexe, remexe, escreve, apaga, escreve novamente, é hora de sentar um pouco para a pedreira que teria à tarde.

E Daniel tava ligado ali naquela sala, tinha que está plugado o tempo todo, cada sala com seus mais de cinquenta alunos requer uma demanda muito, muito grande, uma responsabilidade pelo outro que exige muito amor, dedicação, e para tanto é preciso conhecer bem, mesmo que de conselho em conselho que participava, sabia um pouquinho de todos ali. Mais uma das lidas na arena da vida, jogados aos leões, para evolução da espécie, a seleção que se dá por vários processos, métodos, sorteios, intempéries da natureza ou por influência da lua ou posição dos astros, sei lá, que se lasquem os bons e maus motivos, a realidade é que estamos o tempo todo sendo testados, o simples fato de estarmos vivos é suficiente para estamos sendo testados, estarmos atentos à sobrevivência, para uns mais, para outros menos, mas para todos encargos e tributos a pagar para uma máquina estatal e governamental que está nem aí, e assim se passam quinze minutos, meia hora, estão todos os alunos a entregar as provas, a querer sair dali, de onde o pensar continua enclausurado às paredes da instituição. Falta muito ao conceito de escola. Ela era caduca, do tempo em que ele foi aluno também secundarista… vai lá uns vinte anos e quase nada ou pouco nada mudou. Dizer que fazer aula diferente com música, dinâmica do abraço, comidinhas, ia ser diferente? Nada, sentia falta de um espírito renovador, estudara antes por vários colégios até se formar a pouco mais de uma década. Escolas de padres, franciscanos, públicas, privadas, particulares, de aluno a professor, na corrente que impulsionava a vida.

Enquanto a turma respondia a prova reinava um silêncio de ranger de cadeiras, de consciência pesada, de bem que mamãe avisou; aos poucos também tudo vai se recompondo e vai chegando a vez da inquietude, e o tempo volta a avançar, devagar a manhã se arrasta diante das dificuldades das perguntas que pairam. O que teria que responder mais tarde? quais questões caíriam? interpretação de texto? questões mais descritivas? dissertativas? que viesse como viesse Daniel também seria submetido a mais uma prova que lhe seduzia com a promessa de um mestrado, uma capacitação que poderia lhe abrir novas portas da educação, lecionar nas universidades, trabalhar com pesquisas e novos projetos, somente a graduação já quase nada ajudava no mercado de trabalho… um cenário cada vez mais difícil e concorrido, sim, já se iam quatro anos trabalhando como contrato temporário, mais três em escolas particulares… Muito trabalho, muita coisa nesses sete anos. Parecia lembrar como desde então resolvera assumir as classes e sair das redações de jornais. Trabalhava antes como diagramador, movido pelo desafio procurou o jornal como disciplina para escrever, apaixonado pela poesia, desde cedo aprendera nas palavras a melhor maneira de se resolver com a vida. A transgressão poética era o rompante de uma lucidez boreal, vermelha, ardilosa, que o seduzia com suas musas e mulheres. Dedicado às paixões e ao idílio, Daniel sabia que mesmo em poesia, expressão maior de sua terra natal, do seu umbigo do mundo, vivia mesmo o crepúsculo do milênio e ao mesmo tempo um romper de um novo dia, o impasse paralisante do ser ético, que adotava-se abruptamente e aos trancos com a descida da ladeira. Blablás, um movimento qualquer e era mover tudo do lugar, e ia se pela regra do erro; do improviso, do arremedo. Uma caricatura da Disney… que se repete nas ruas, nas lotéricas, nos bancos, nos ônibus, em toda parte, tem sempre a figura do zé de seu… se fazendo de bobo para te roubar, se não teu dinheiro, no mínimo teu tempo… tempo, modalidade que vai além de tic e tac, assim como a outra medida: dinheiro. Bens e zens: o ter o que contar, e o contar por ter; ter equivale a possuir, e esta relação se estende das coisas para as pessoas como trepadeiras, samambaias. É como decorar a casa, você vai se empolgando e nunca acaba, por mais que coloque bibelôs, espalhe jarros, pendure quadros, coisas que você acredita deixar a casa a sua cara bem maquiada, cheia de charme e envolvente; sim, mas a melhor casa mora dentro de nós, e Daniel sentia sua casa desarrumada, isto porque arrumar a casa nunca foi seu forte, a primeira família trouxe a compreensão e consequentemente na cabeça existe tanto espaço, tanto espaço que chega a ser surpreendente como o conhecimento é outra dimensão importante nessa equação: o tempo e o espaço determinam o viver. Um espaço de provação, mas tarde ele também teria sua prova como uma pedra a mais no caminho. No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho. Eu nunca mais vou esquecer que no meio do caminho tinha uma pedra, e que Daniel precisava contornar essa pedra e até mesmo todo o caminhar da sua vida, o bom que para isso não teria que fazer uma única prova.

Amanhã continua…

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Sobre mphaickel

Professor e escritor, autor do romance "O Cinza da Solidão", na sua 3a. edição, publicado pela Thesaurus Editora.
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