Quem vai querer comprar bananas? – Capítulo 14

capa_cinzaAntes mesmo de tocar a terceira sirene a turma já havia terminado. Ainda lutavam com a lembrança, ou memória; isso um ou dois alunos mais esforçados. Will meteu as caras na porta da sala e bradou:

— Libera para quadra! Quem terminou pode ir para a quadra!

Aquilo nunca tinha soado tão bem nos ouvidos. Houve um princípio de algazarra, mas de pronto Daniel bradou:

— Quem tiver de zoeira eu não vou recolher a prova!

A turma aquietou, passou entre as cadeiras recolhendo as provas de quem já havia terminado e a rapaziada foi saindo para a quadra da escola. Lá a diversão dava bola para a algazarra, lá se esticavam pelo sol como gatos, rosnavam, se embolavam e o resto da manhã seguia com a subida do sol.

Sobrou um tempo, um intervalinho de duas a três horas antes da prova. Hora de sair correndo para repassar ainda alguma coisa. Respirava fundo e começava ali uma nova caminhada que poderia lhe levar um pouquinho mais além. O mestrado em teoria literária, sim um sonho que poderia lhe abrir novos horizontes tanto na editora onde trabalhava bem como com a carreira literária de escritor ou na carreira de docente; com o mestrado poderia engrenar nas universidades. Por hora era tudo sonho e a realidade de professor temporário e de escritor underground era um tanto sufocada pelas contas, vida de artista então caminha meio empurrado pra fora do carro. K de caramba, carambolas, malabares, palhaços se esbarrando no picadeiro, durante o ensaio, às dez e meia, descontrai contando ou ouvindo uma piada, outra piada. Aos poucos se encontram todos os professores na sala e partindo uns se despedem entre corredores, entre cafezinhos e folhear de páginas.

Tudo tenso, nós da trama, da vida, que vão se apertando e entrelaçando uns aqui e desenlaçando outros dali, como compões o céu de estrelas formando pontos, pontes, que nos remetem a outro Universo revelando nossa pequenez, de lascar a imensidão comparável somente ao sonho, um desejo que faz girar o carrossel, a abóboda celeste… respira, anda pela sala dos professores organizando o material, ao lado pastas, livros e diários. Mesa grande, cabem todos, Carmen lança notas nos diários, suspira, Juliana entra esbaforida, Dinha e Lucinha chamam para o cafezinho.

— Então Daniel… café fresquinho…

— Cheirou… – rebate Daniel com o aroma do cafezinho fumaçando no copo da Dinha. O cheiro mexe com todos. Um outro aluno estica o pescoço da porta de entrada, arrisca chamar Milton de Matemática, mas acaba por desistir e sai correndo. A Matemática a ser um bicho de sete de cabeças, como a Literatura, a Arte, Geografia, a escola se arrasta numa didática de cuspe e giz ainda em século XXI. Na real a sala de aula ainda continuava a ser a grade horária, corrida, mal estruturada, onde faltam recursos, e sobra paixão; o ambiente, mesmo na capital do País, as escolas ainda que de uma melhor estrutura arquitetônica, mas pouco funcional, o projeto inicial e modelo da capital idealizado e implantado nos anos 70 com as Escolas Classes, sem dúvida se perdia sem rumo num mudo em constante transformações, principalmente em termos de tecnologia, quesito de suma importância para a vida, mas extremamente “proibido” nas escolas, “devices” que cada vez se voltava ao individualismo, a resolver serviços, e a escola não servia para isso, parecia ignorar a própria realidade, com conteúdos e mais conteúdos cada vez mais alienados num egoísmo feroz… não a escola prestava outros serviços, depósitos de pessoas, que ao contrário do que dizia o mestre Paulo Freire ignorava o seu próprio meio. Por vezes mesmo, Daniel se questionava sobre os conteúdos dos PCNs. Com a força da Internet as mudanças se processavam em bites e bips, bips, teeemmmm eeennnnn uuuuuuuuuu, no começo era assim, bem antes dos anos 2000, na virada do milênio a Internet era discada, hoje a coisa já estava bem mais rápida e silenciosa, uma transformação se convertia em códigos de barras, javas e androides num ciberespaço, nas nuvens, a escola perde seu espaço físico, já não consegue organizar sequer o conhecimento, há um bombardeio a cada segundo de informações, sites, blogs, e-commerce, o fluxo é muito rápido, as pessoas viajam muito mais, depois de muitas lutas, idas e vindas, e processamentos de terabytes e redes conectadas em perfis, tudo muito virtual, chats, toda uma revolução acontecendo, mas que parece de fora dos portões. Intermediações, sai com Dinha e Lucinha para o pátio depois do cafezinho. Mais com pouco chega Juliana.

Dia bonito, meninos correndo nas quadras, muitos indo embora, portão aberto, sol e vento frio balançam as copas das árvores.

— E a rodada do fim de semana? pergunta Daniel.

— Não é que deu uma graninha… Ganhei ainda uns mil e duzentos no poquerzinho.

— Uma graninha!? Porra quem me dera ganhar mil e duzentos numa noite? é quase o meu salário…

— E tu? Não ganhou nada?

— Só onze pontos… não dá merda nenhuma…

Juliana arremata, sorte no jogo, azar no amor… Franco entra na conversa:

— Que nada… Jogo é jogo e Amor é Amor… não mistura as coisas!

De repente tá feito a rodinha, parecem uma tribo na aldeia, responsável por mandar sinais de fumaça. Cada um tem um causo para contar, uma ideia, um projeto a espera de interdisciplinaridade, ou como querem e também pode ser, transversalidade, combinando tudo num só enredo.

— Então? Preparado para a prova? – pergunta Juliana.

— Claro, mais tarde… estudei um pouco. Tenso, UnB… mas de boa. Fiz Letras, né! Tenho que saber… na hora lá é calma e elegância…

— Sei não… esses caras ali são muito é alienígenas, que nem no livro do Machadão – rebateu Franco.

— Que nada! A UnB é tudo de bom – acrescentou Dinha.

— Vamos ver mesmo é na hora. Prova é sempre difícil, não tem nada fácil! Se for fácil, desconfie…

— Com certeza… pairou um silêncio.

— Prova de quê mesmo?

— Língua e Literatura espanhola.

— Boa sorte.

— Valeu!

Dali a conversa prosseguiu por mais alguns minutos e depois Daniel partiu para pegar os meninos na escola.

Amanhã continua.

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Sobre mphaickel

Professor e escritor, autor do romance "O Cinza da Solidão", na sua 3a. edição, publicado pela Thesaurus Editora.
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