Quem vai querer comprar bananas? Capítulo 15

mphaickel54c89d68ce106Os meninos… vamos lá: os meus, os teus, e os nossos! Claro que isso merece um capítulo à parte; como não falar dos filhos, essas peças, figuras, parte da gente, gente inteira, dias e noites, juntos, perto, longe sem tá, de todo jeito, os filhos são uma herança em vida. Depois tudo vira saudade, mas o antes e durante é o que interessa, o que nos move, nos faz virar leão, galinha, águia, seja qual bicho for, a verdade é que mudamos com sua chegada e nos derretemos com suas permanências… há quem veja sua continuidade, sua obra, sua tarefa, missão por esta passagem, um ser onde aprendes e por fim começas a entender a ti um pouco mais, que é outro, com suas idiossincrasias.

Não há evolução sem o ciclo completo. A corrente gira e engata, abraça os elos de sangue quando observamos não só a relação com os filhos, e nos damos conta de nossos pais, avós, e partilhamos de boas lembranças da família, da geração de anos e décadas, datas, símbolos e gestos vividos no ambiente do lar.

Lar doce lar de meus sonhos, dos teus sonhos, dos sonhos de todos nós que nos trás a vida o doce e meigo olhar de minha avó sempre a me alimentar com seu canto de manhãzinha, canto de Nanãn, canto tupi, jererê… ah como me acalmava o acalanto de minha vó, quando ela me chamava para estudar, depois a gente com mais meus outros primos íamos com ela varrer o quintal e subir em árvores, e comer jambo, seriguela, beber água de coco, carambola, juntar folhas de caju; no quintal tinha um cajueiro enorme, bem junto do muro, mas enorme, gigante, que a gente chamava caju babaçu, só caju que te fazia babar e a nódoa na camisa era certa. Era meu avô chegando no começo da tarde com os bolsos cheios de balinhas Xaxá, sabor banana, café, não sei o quê docinho… açúcar, doce, meninada saía correndo do quintal, cerca, brinca, estica a mão, pede bênção, vovô ri, vai desviando pela sala, contorna, a essa altura na casa chega os tios, as tias, cachorro latindo no quintal, gato desocupando os sofás da sala, televisão anuncia mais uma propaganda, o jornal alardeia mais alguma coisa, aqui e ali se arrasta pela Avenida São Sebastião um ou outro ônibus monobloco, barulhento, soltando fumaça preta no ar…

Daniel também evoluía por se ver parte em todo o ciclo, o tempo passa, já tinha sido filho, enteado, neto, pai, tio, padrinho, cunhado, padrasto e passando por todo esse túnel do tempo até que chegasse ao presente um tanto sambado, cobrando e sendo cobrado o tempo todo, dando e respondendo o tempo todo a perguntas, respostas, situações, exemplos, medo, certeza e dúvidas o tempo todo… Já não dá mais para ver as coisas como antes, mas sim como agora, que também pode ser diferente de tudo daqui a pouco. Um futuro não tão distante, um passado nem tão presente, mas que nesse torvelinho um fio só se emaranha por todos os lados, dando vez a outros fios e vidas, e sentimentos, uma ou outra paisagem, viagem, pessoa… e o mundo da gente está cheio de pessoas, de gente, cada qual com sua razão, seu propósito, sua decisão, por isso e por aquilo, nada é em vão… mais fácil achar mesmo é que nada faz sentido ou tem obrigação de fazê-lo; uma família é uma experiência das mais intensas aqui na Terra. Pare para pensar, pense… como seria se não existisse a família, por mais imperfeita, briguenta, fofoqueira, competitiva e sendo essência nos garante a sobrevivência, e que não te vença a indiferença…

Para o carro na porta da escola. Espera, liga o rádio, aguarda… mais com pouco toca novamente a sirene… o portão da escola abre, os meninos saem, se atropelam, se empurram, riem, correm, fazem caras e bocas, as meninas param para se maquiar, na rua os carros encostam, o ônibus velho e sujo encontra, a criançada entra, os carros desviam, param, as portas abrem, uns saem, outros entram, lá vem Caio, lá vem Clarice, há bem pouco tempo buscava Marisol, sua primogênita na escola, e ia de bicicleta, desviando dos carros pelo caminho. E para completar o time do meu, dos teus, e dos nossos, tinha ainda Antonio Carlos e Messias. Atualmente Daniel convivia com os filhos de Yolanda: Caio e Clarice, o com Antonio Carlos filho de uma pulada de cerca do seu primeiro casamento com quem teve mais tarde Marisol e Messias.

Entram no carro Caio e Clarice, um com pouco mais de 15 e a outra beirando os 13 anos. Já lá se iam três anos que estavam juntos Daniel e Yolanda, mas para valer mesmo, morando juntos, pouco mais de um ano.

— Vamos lá! – apressa Daniel.

Caio tira e joga a mochila no carro, Clarice entra sem falar nada e senta no banco traseiro. Vamos lá, subida, quebra-molas, mais subida, partiu casa. Chegar comer e sair para UnB.

Em casa Yolanda dividida entre ler os e-mails, vigiar a comida para não queimar, roupas na máquina e ao mesmo tempo pintando as unhas do pé.

— Oi Amore, é hoje? Tá preparado, estudou um pouquinho?

— Sim, na hora lá dou meu jeito! Pode deixar… e a comida, pronta?

— Falta só um pouquinho! É o tempo de tomar um banho…

— Antonio Carlos ligou, perguntou se você pode ir pegá-lo nesse fim de semana?

— Claro! Liga a TV, quero ter noção do tempo, não quero me atrasar…

— Vai dá tempo sim, a prova não é só as quinze horas?

— Sim, no CT…

— Anda toma logo teu banho… vou apagar o fogo das panelas.

No banho Daniel recorda os outros dois filhos, Marisol e Messias, vivem com a mãe em outra cidade. Lembrar dos dois é lembrar sua juventude, os tempos de faculdade, de liberdade total, de amor e fuga, toda uma aurora que por sua luz iluminou um sonho, uma utopia, da qual começou a escrever sua história na sua cidade natal, e que virou depois caminho e por último desvão. Tempo, tempo, tempo, que avança e recua na memória, que sobressalta, plaina até que uma porta bate, outra fecha, e o vento passa, a brisa passa, e tudo passa, quando se vai ver o dia virou noite, e quem pensava que não ia sair vivo aprende novamente a respirar, mais, sempre queremos ou estamos em busca de dar o melhor para os nossos, garantir-lhes a sobrevivência nessa selva; alguns arriscam a própria pele, outros adotam outras táticas, a sobrevivência é de acordo com o ambiente e as circunstâncias, isso não muda. Se você não fizer as circunstância estará as intempéries do ambiente. Água na cara, aquela era mais uma chance de fazer as circunstâncias, persegui-las, lutar, se submeter a prova… haveria de passar, oxalá passasse…

— Tá pronto… gritou Yolanda da cozinha.

— Sim, estou pronto! – respondeu Daniel como a buscar a autoconfiança que lhe faltava para seguir firme na hora de fazer a prova. Em seguida desligou o chuveiro e se mirou no espelho e repetiu mais uma vez:

— Sim estou pronto!

Já no auditório do CT ouviu atentamente as últimas instruções da prova pronunciadas por um dos fiscais:

— Vocês terão três horas para responder a prova. Qualquer dúvida levantem o braço que um dos fiscais se dirigirá até vocês. Boa prova a todos.

A hora tinha chegado. Essa era apenas uma das etapas do processo seletivo, ainda teria mais três etapas: projeto, entrevista, e prova final. Com calma leu o texto em espanhol, parágrafos longos, pouco claros, trechos com citações de teóricos, massudos, emborrachados, um tanto difícil de pronunciar ou mastigar… e novamente o desafio de correr contra o tempo se faz feroz, o tempo passa, lê, relê, volta, avança, procura significado da palavra no dicionário, a prova podia consultar dicionário, ele vira página, procura, folheia, rabisca, sublinha, extrai, escreve, cansa, dorme um pouco sobre a prova, retoma, o fiscal avisa uma hora e meia de prova, agora falta pouco, alguns começam enfim a entregar e sair, ele reescreve, repensa, analisa, avalia, escreve mais um pouco, fecha uma ideia, transcreve e reescreve, agora sim as respostas vão surgindo devagar uma a uma a prova vai tomando uma cara, o desafio começa a não mais intrigar, acredita, respira, tem jeito, leva fé, ainda assim titubea ao entregar, relê mais uma vez, sabe que é importante passar e finalmente após reler suas respostas entrega a prova, já aí faltam trinta minutos para acabar o tempo total. Duas horas e meia, avalia, tá bom, seja o que Deus quiser, o que tiver que ser, será!

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Sobre mphaickel

Professor e escritor, autor do romance "O Cinza da Solidão", na sua 3a. edição, publicado pela Thesaurus Editora.
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