Quem vai querer comprar bananas? Capítulo 16

capitulo16Depois da prova Daniel foi à banca de revista da Colina. Ali tomou uma água de coco observando a paisagem, o lago. O final da tarde caía suave. Já avançava para o sétimo mês do ano em curso. A luz se derramava pelo outono, se avizinhava uma seca de lascar, com um vento frio no final da tarde. O ano avançava e Daniel tinha que se preocupar já com as novas provas que teria que se submeter para o ano que já despontava… tinha pela frente mais cinco meses de contrato pela frente, mas uma vez iria tentar a prova de professor temporário e tentar garantir mais um contrato para os dois anos seguintes. No fundo ainda vacilava em seguir a carreira. Ainda na Universidade lembrava-se de suas “brigas homéricas” com os professores do curso. “Professor…, Daniel! O curso de letras é para formar mão-de-obra barata pro Governo. Eles não querem poetas, cronistas, nem na República de Platão os poetas eram bem-vindos”, brincava Timoteo, o professor de Latim. Um italiano que veio parar no Brasil e aqui prestava serviço de tradutor para a Igreja Católica, além de ministrar aulas na Universidade.

Na real já algum tempo que as coisas não se saiam como ele imaginava, a uns cinco, seis anos antes de se encontrar ali, naquele exato momento, com uma outra família, trabalhando em outra área, na Educação, já que antes trabalhava com a matéria prima de que mais amava, a literatura e vivia.

Putz, lá se iam unz vinte anos… a trajetória, o caminho, os entardeceres, carambas vinham num flash back forte; claro, lá se iam vinte anos ou mais, não havia nada de que se arrepender e também nem que arredar pé… era o caminhar que se fazia muito, demasiado, deixavam pegadas, talvez que não fosse a hora, nem mesmo a vez; Graça também foi a protagonista de sua primeira classe, na sua chegada, as boas-vindas e também o vá em paz, a vida é assim, e assim como ela, também vieram várias outras professoras e professores, sua passagem pela universidade fez parte do caminho, a grande escola, as descobertas, as viagens, as lutas e também a juventude… até que suas definições de vírus foram atualizadas; a leitura, a greve, o embate; dialética, finalmente a vida era dialética, era aprender e aprender, moldar-se, trabalhar e estudar, estudar e trabalhar e nessa balança o que nos sobra é viver… e vivemos tendo filhos, mudando nosso foco de prioridades, deixando de ser um para ser dois, três, quatro e se dividindo e se multiplicando… Daniel sem mesmo saber ou se dar ´por conta se via além de tudo evoluindo…

Carambas, o tempo tinha se transformado, sua luta dos tempos de faculdade agora era a realidade que antecipara, nada de novo nesse mundo ovo. A realidade que não precisava ser nenhum gênio para saber como era tratada a educação no país. Não passava de mais um dos ítens que não poderiam faltar no discursso das próximas eleições, assim como a questão da saúde… poxa essas coisas cansam, são sempre as mesmas como mais um bláblas e bláblas e taus e taus e taus…

A verdade era que tinha saido das redações e pouco mais de cinco anos que estava trabalhando em sala de aula, tentando por todos os lados, nessa nova área, era professor temporário na tentativa de educar, ao mesmo que a realidade era a que vivia em sala de aula por todo esse tempo, migrando da escola particular para a escola pública, aonde vale o quanto pesa ou reza… e assim a prova, o peso do mundo em suas costas, o tempo, a idade, as circunstâncias, tudo enfim, fazia daquela água de coco um néctar, um merecimento… mas na real no meio do turbilhão, da necessidade, da crise, Daniel vivia sua existência, sua vida, e assim não era diferente de ninguém: cada qual com seu seu cada qual… mais do mesmo, ou um sem-fim para agora ou mais tarde.

E mais tarde ainda lhe esperavam mais provas e atividades para planejar, precisava na real comparecer na Regional de Ensino para entregar novamente os documentos para participar de mais um programa de educação, desta feita para integrar uma equipe de alfabetizadores para trabalhar como voluntário na alfabetização de jovens e adultos, através de uma frente de movimento popular. Era um processo simplificado, em que os alfabetizadores ganhariam uma bolsa para ajuda de custo com transporte e alimentação, pouco mais de meio salário mínimo. Uma iniciativa dos movimentos populares de educação em sintonia com apoio do governo para erradicação do analfabetismo no DF. Mas isso era mais uma coisa para o outro dia, por hora era voltar para casa e descansar enquanto esperava o resultada da primeira etapa do mestrado na UnB.

Amanhã continua mais um capítulo dessa história…

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Sobre mphaickel

Professor e escritor, autor do romance "O Cinza da Solidão", na sua 3a. edição, publicado pela Thesaurus Editora.
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