Quem vai querer comprar bananas? Capítulo 9

capa_o_amor_de_marianoCaminha, força sempre, logo mais avista a comercial. Vem por dentro, agora já não é mais árvore, é carro, sinal, mesa, gente falando, neon, fumaça; agora a coisa muda de figura, vira trabalho, e trabalho é uma coisa séria, mas também é mais, uma ação que requer planejamento, propósito e isso faz um diferencial e é esse diferente que atrai, que distrai, que encanta, ou então atende a um desejo, e para tanto temos que estar preparados, Daniel chama atenção dos alunos, que sigam o mestre, que vendam muito mais que o papel, que vendam as ideias por trás das palavras, que suas missões serviriam para humanizar, incentiva a prática da economia solidária, a circular os bens culturais, falemos de nossa aldeia, dos nossos problemas, das nossas realidades, do próximo; e não de de neve, de vampiro, de magias ou bizarrices: “Universal é teu quintal” – lembra… ” e o nosso quintal é tupiniquim” – acrescenta.

As conversas aumentam, a noite começa a mostrar a cara, ele vai para a terceira etapa da jornada. Recordando, pela manhã na escola, de tarde, Editora, de noite, ronda pelos cafés divulgação da sua obra.

Ninguém é sozinho. Além dos seus livros, leva sempre o de outros autores conhecidos, amigos, e mistura além disso livro de outros autores clássicos universais. É preciso oferecer um bom serviço. Ter variedades, o cliente é exigente para livros, quando os lê.

Marx e Rafael se embrenham na noite, sentem-se veteranos, um dá força pro outro e seguem avançando pelas mesas… “Boa noite! Livros… Campanha de Incentivo à leitura: em vez de um filme pirata, que tal ler um livro legal? Dos autores da cidade?”.

Primeiro causa espanto, depois as pessoas passam a gostar da ideia, livro fascina, é a proposta de conhecimento, o conhecimento não ocupa espaço, desperta, mexe, provoca, os livros são depositados na mesa, e daí partem para outra mesa, novamente a abordagem, a estratégia, a possibilidade, a reação inesperada, a cara de surpresa, o tempo, o processamento, a informação, uns evitam virando a cara, outros param, escutam, algumas vendas são realizadas, outras ficam na promessa, a turma se dispersa, depois se encontra, se reúne, dão o “partiu, feroz e desumano”; outro bar, outro café, novas pessoas, novas luzes, copos, talheres, guardanapos, beijos, abraços, demonstrações de afeto de casais, fome, mastigação, as pessoas devoram, leem, passam folhas, acendem cigarros, batem cinzas, levantam copos, tudo muito colorido, fumaçado, muita música, risadas, à noite todos os gatos são pardos, as pessoas se misturam, se conhecem, se apaixonam, Rafael volta encantado com uma mulher que conhecera a pouco, ainda mais que comprara um dos livros do seu bolo. Comemora, empurra Marx, contorna aqui, avança para outra mesa, fala, gesticula, recebe atenção de pessoas que jamais sonhava ver, homens, mulheres, jovens, adultos; festeja, vendeu mais que Marx e que o Logan, com certeza, é o mais articulado, desinibido, metido a galanteador:

— Dani, aquela professora dá mole pro senhor! Tá pegando? – indaga com gozação.

— O que é isso! Primeiro que não sou Dani, meu nome é Daniel! Segundo, sou apaixonadão pela Yolanda… não faria isso!

— Frescura, professor!

— Frescura coisa nenhuma! Quando a gente ama…

— Frescura é esse negócio de Dani… gosta, não?!

— Claro que não!

Os dois riem… a noite segue, Logan começa a se soltar, já vendeu uma graninha também, todos estão alegres, a noite foi boa, de repente Daniel dá o grito, se junta aos demais:

— Pesquei, pesquei…

— O quê? O quê?

— Um peixinho! Uma garopa! Cenzinho… Todos se animam.

A noite avança rápido, já já é 22h30, já começa a ficar tarde, a jornada tripla cobra o cansaço… ele já vai ficando um pouco mais atrás, deixa a meninada empolgada desenvolver… vão os três, ele confere os livros, organiza o estoque no porta mala do carro, sai por ali, enquanto os três continuam o trabalho pela comercial Daniel desgruda um pouco os olhos e vai na direção do supermercado 24h, compra pão, suco, queijo fatiado e mortadela; a galera vai passando, Bloco A, Bloco B, Bloco C, conhecem a rota, ali Martinica Café, Casa de caldos, Casimiro, Terapia, Beirinha, 2 Clichê, Distribuidora, Raízes, Senhoritas, e assim vai. Escolhe bandeja, entra em fila, paga, aproveita e troca o dinheiro, ajeita o troco, volta pro carro, espera a turma regressar, tá cansado, vai propor arrego, oferecer comida, pausa antes de seguir. Suspira, olha pro céu, a noite está estrelada, a lua vai alta… procura a turma com os olhos, pega o celular e liga…

— Cadê vocês? Vão demorar ainda?

— Tamo terminando… anuncia. Ta’moindo… o sr tá no carro?

— Sim, tem uma merenda aqui. – suborna para a galera voltar mais rápido.

— O que é?

— Venham logo ou vou comer tudo sozinho!

— Ta’moindo!

Esse ta’moindo só falta matar Daniel de raiva… pensa em falar, mas Logam é mais rápido e desliga o telefone. Respira antes de começar… relembra o dia… os problemas, as dificuldades superadas, as alegrias, a saudade de Yolanda, relembra sua voz, seus carinhos, companheirismo, sente mais vontade de terminar logo e pegar o carro e acelerar para casa. A turma volta falando muito e com cara de aborrecimento. Rafael fala alto e gesticula, Marx parece socar o ar de revoltado e Logan, mais atrás balança a cabeça ainda sem compreender. Deu alguma merda, pensa rápido Daniel… Tudo parece tão difícil pro dia acabar, ainda que seja avançada a noite. E não acaba…

Amanhã continua…

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Quem vai querer comprar bananas? Capítulo 8

capitulo8A noite cai, transcorre o tempo e o vento balançando a copa das árvores, frutos, flores, folhas… balanga ali uma copa inteira, as árvores se cumprimentam, se espalham, produzem sombras, arejam os pensamentos…

O vento não se conforma, sacode, arrasta, sopra e o balanço movimenta, força os elos da corrente, geme, a gangorra inverte a posição, o parquinho da quadra procura pela infância desde a janela, tudo vira tela, algazarra, turba, os meninos, que não são mais crianças, são pais muito cedo, Daniel também fora pai muito cedo, cada um com seu cada um, como as árvores ali.

Festejamos, o vento traz para perto e depois leva para longe… o vento é matreiro, os caras também.

A ronda vai começar, reúne, dispersa, dois vão por ali, Logan, vem comigo… caminha, conversa, arruma os livros, repassa o argumento:

— Livros, Logan… sabe bem o que é isso? Tens ideia do poder transformador que os livros têm? Nós vamos vender livros na noite, nos cafés da cidade. Legal, né?

— Menas, professor. Menas…

— Putz, Logan! Menas não existe, carambas!

Divaga, volta no tempo, lembra, lombra… sai de só, por incrível que pareça se multiplica na ação,há uma maneira de acabar com o poder. Partilhando! Socializando o conhecimento, ensinando e aprendendo… vamos lá, mais uma etapa na jornada tripla. Manhã, escola! Tarde, editora; noite, campanha de incentivo à leitura. Sim a aula continuava, o desejo de partilhar a informação local, falar do quintal, autores de nossa cidade, andar pelo Eixão, é andar pelo quintal da humanidade, colhendo frutos das árvores, viajando na poesia aleatória das tesourinhas, do vento, da paisagem, “era setembro ela beijava-me o membro numa manhã primaveril”, uhhhhh, Drummondiando, era assim, a abordagem, sempre com um poema e um sorriso… voz vibrante, no olhar aceso a chama, o desejo por justiça muito grande, por mais equidade, isonomia, paz antes de tudo, porque em paz se divide, sobra tempo para fraternidade, para a troca das sementes, cria-se a tradição… mais um leão a enfrentar, a ignorância!

A abordagem na noite, não deixa de ser um trabalho que aos poucos está se diluindo com a tecnologia. Postos e mais frentes de trabalho foram reduzidas ainda mesmo no processo de produção. Bom, muito bom essa modernidade, globalizante, e ainda assim escravizada ao tic-tac do relógio encardido da repartição. O bicho papão do transcurso, trans-metadados, novos conceitos, novas leituras, equivocadas? certas? absurdas? loucas? nem tanto ao céu, nem tanto ao mar? vai saber? tem que perguntar? é preciso antes colecionar, trazer à luz, permitir, ouvir, libertar, mostrar e dizer que pode, que todo mundo tem acesso, tá tudo aí… dentro! hahahahahaha, brincadeira, mas é sério! Irmão tamojunto! é nois queiróz! zoroz… a abordagem tem que ser capoeira, angola, miudinha, na ginga e no chão, boca de siri, armada, olho no olho, eu falo e escuto… a esquiva é sempre a primeira saída, mas tem que voltar pra roda, não pode deixar escapulir, um olho atento e outro contente… vamos lá, ginga que eu quero vê. É capoeira, é luta mas é dança, é munganga, é no chão, dentro sem machucar! vale bisca, mas não vale beliscar! é ação e reação, bom mesmo quando rola interação, o jogo vira comércio, vai além fronteira, vai a quem entende, evolui pra´lem do casco, o tempo muda, mudou também as distâncias, tudo muda de lugar, o mundo gira a noite avança… e tudo começa e termina, mas só termina quando acaba, e ainda tava longe de acabar…

Amanhã continua.

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Capa protetora de livro e jornal Dragão de couro com trinco

capajornalTrabalhada a Mão capa e livro de couro com um dragão e o sol na frente. Border & embossing traseira pode variar. Os tamanhos variam ligeiramente. Couro, papel feito à mão. 240 páginas, o encerramento trinco. 6 “x 8”.  R$ 93,00.

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Drone super equipado com câmara profissional

drone1

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Nome do artigo: Drone equipado com câmara

gama WLtoys V353 RC Quadcopter Idade: + 8 anos
Material principal: Espuma e cores de plástico. PRETO
Fonte de energia: elétrica
tensão de carregamento: 3.7v3.7v
Plugs Tipo: USB
Canais de controle:
4 Canais
drone2vôo Raio: Cerca de 80-130 metros
V353 Quadcopter Peso Líquido: 205g
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Tempo de carregamento: Cerca de 90 minutos
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Quadcopter Bateria: 7.4V 850 mAh (incluído)
da bateria do transmissor: 6 * 1.5AA (não incluído)
Garantia: 1 mês
drone3Tamanho do produto: 30 centímetros x 30 centímetros x 6,5 centímetros
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Quem vai querer comprar bananas? Capítulo 7

capitulo7O amor é a esperança de nossas vidas! No amor vivemos, crescemos e morremos inúmeras vezes, como dizia o poeta Quintana: “é tão bom morrer de amor e continuar vivendo”, quando tem Amor na parada, Amor de verdade, viramos lenda, imortalizamos, ainda que brevemente, como a fênix, renovamos a alma. Sempre acredita-se no amor como forma de não se estar sozinho em tudo, sempre fora da ideia de partilha, ainda que o destino insista em atrapalhar seus planos.

Daniel vai pro segundo casamento. A primeira vez tal qual a primeira foi assim, meio que acontecendo em meio a tantas coisas, que quando parou já tinha sido. Do primeiro casamento, dois filhos. Da pulada de cerca: mais um. No caso da Yolanda, acabou engravidando e tendo o primeiro filho com pouco mais de 18. Fibra, raça, gana, não a deixou descansar e ela seguiu estudando, se formou, veio o segundo filho, a Aninha, não tardou a separação, a luta acirrou, ela continuou, muita perseverança e ajuda dos pais, menino na escola, corre daqui, dali, se forma, concurso, primeiro para temporário, mais luta, muita garra, trabalha, trabalha mais, estuda, vira noite, menino chorando, todo mundo reclamando, ai meu deus, me dê força, vai de lá, vai de cá, separa, volta, briga, luta pesada, vamos tentar mais uma vez, frustra, desilude, menino chora, família tenta de tudo, não dá certo, coração quebrado, tudo destruído, mesmo assim segue adiante, vai, menino cresce, o tempo passa, cicatriza, jura nunca mais amar alguém, o tempo passa, se apaixona de novo, não dá certo, segue trabalhando, agora passa no concurso para valer, caleja, aprende o jeito, vai adquirindo as manhas, sabe que não pode parar por aí, a filha vai e cresce, ex-marido desaparece, já nem é bom tocar no assunto. Deixa para lá… seja feliz… Ficou os filhos… sempre fica alguma coisa!

Já os dois se juntaram a pouco. Ela meio que com um pé atrás, ele que na eterna procura. Disposição foi virando apego, depois “xamego”: carinho, respeito, encantamento. Com as fases da luas vieram também o tempo natural de cada um. Os teus, os meus, os nossos cresciam juntos, corriam os dias, tudo voa, a uva passa, o carro passa, o tempo passa, então com eles, com os meus, com os teus, com os nossos o tempo todo, junto; os amigos se acostumam, incorporam-se todos à paisagem, tiram fotos, viajam, e mesmo assim de vez por outra ainda bate a insegurança, vão morar juntos na casa do pai, logo planejam, arriscam e lá vem de novo o destino a tramar mais uma.

Continua na próxima segunda-feira…(26-01)

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Quem vai querer comprar bananas? Capítulo 6

brasil-lutoMotor raja… mais um quebra mola, mais outro quebra mola. A vida reproduz o trânsito no dia-a-dia. Um quebra-mola é mais um desafio, uma coisa atravessada, e a todo momento atravessava uma coisa nova, a cada rua, a cada caminho, que entrava, agora era a vez de pegá-los na escola.Para. Espera: tic, tac, tic, tac, tic, tac… chega Gabriel:

— E aê Daniel? – acena com o sorriso maroto.

— Viu a Ana?

— Tava por ali, d’agora!

— E o Caio?

— Não vi! E ai, dá uma carona até a rodoviária?

— Vamos lá… vê se encontra os meninos e vamos nessa! O Pretinho morreu…

— Fala sério?!

— Sério!

A volta para casa no carro. Todo mundo se ajeita. A Ana tem uma amiga que também quer carona até a Rodô. Aperta. O carro chia, a escola fica lá embaixo, tem uma subida enorme. O carro apresenta seus barulhos, seus tremeliques, lembro que tem que fazer a manutenção, mas ainda está a espera de uma grana que ainda não veio, reza baixinho pra que o carro chegue lá encima, depara-se com um ônibus escolar cerrando a embreagem na subida… devagar vai um carro antes, o ônibus avança, ele também. As crianças se provocam, se xingam, se cutucam dentro do carro, ele observa de rabo de olho. É preciso estar ligado o tempo todo. O ônibus adianta-se mais um pouco. O carro apaga. Ele puxa o freio de mão, dá a partida. A galera se liga, o motor reage a acelerada… anda mais um pouquinho. Agora vai parar de passar carros na transversal. Que nada! Cerra a embreagem, segue pari passo atrás do ônibus, não dá muito pra vê quando enfim parte feroz e desumano o ônibus. Corta a transversal. Ele avança e para. Espera, os meninos voltam a falar todos ao mesmo tempo. O carro rateia, ele acelera, finalmente parece que vai parar de vir carro de todos os lados… ele então arranca, e segue. Os meninos seguem conversando no carro. Não tem porque correr, a via é de 40km, mais a frente tem um pardal, desacelera, deixa o carro correr, o pardal fica para trás, logo à frente é a parada que fica enfrente à Rodô. Para, depois de muito empurra, desova os amiguinhos. Mais à frente um sinal que parece fazer questão de fechar. Espera: tica, tac, tic, tac, tic, tac, passa uma senhora, um cego batendo bengala segurado pelo braço por um estudante. Ele fala que falta o sinal sonoro, como é que o cego pode atravessar com segurança se não tiver alguém por perto com boa vontade de ajudar. Olha para Ana e para o Caio, ambos com os fones enterrados nos ouvidos. Percebe que está falando com o vento… depois de algum tempo, Caio tira os fones do ouvido:

— Que? – querendo assim voltar a orbita.

— Nada! – responde Daniel.

Em casa, com Yolanda, depois de comer, enquanto troa pelo quarto o som do jornal planejam o sepultamento do Pretinho.

— Não acredito que você nunca enterrou um bicho de estimação! Daqui a pouco vamos ter que enterrar o Pretinho, você me ajuda?

— Claro!

— Eu nunca quis bicho por isso! Esses meninos não tão nem aí pra nada! De lascar… Não botavam nem água pro animal… comida? o bicho morria de fome… eu que botava comida… merda, Amore! Merda! Eu não sei como meus filhos são tão escrotos?

— Calma, Amor… são assim mesmo, nessa idade não tão nem aí pra porra nenhuma!

— Carambas, amore, não justifica…

A tarde chega, começa o vídeo-show, os dois se levantam, já correm pelo quintal Caio e Gabriel, Aninha tá plugada na internet, Daniel vai atrás da enxada, procura pela pá e nada… começa a ficar puto, Yolanda chega junto, invoca os meninos a carregarem Pretinho até o quintal. Os dois se aproximam, brincam, escarnecem do pobre cão, arrastam até o local onde será enterrado.

Começa a abertura e o calvário. Força a terra, abre um buraco. Joga água com o balde, pega mais, a essa altura, Pretinho já está duro, a língua roxa, os dentes arreganhados pra fora… pobre Pretinho, os meninos se afastam, Yoyos mostra as mãos calejadas, Daniel termina de jogar mais terra por cima. Difícil, tudo muito difícil, porque a vida parece que gosta de ser é assim… muito louca e imprevisível!

Se fosse improvável seria outra coisa; melhor, a vida era mesmo mui loca y imprevisible.

Amanhã continua…

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Quem vai querer comprar bananas? Capítulo 5

IMG_8042 Escola 02Delhas e pardelhas, a mensagem chegava também como um alívio. Melhor assim, lá no fundo pensava. Tava foda mesmo ver o Pretinho sofrendo daquele jeito. Merda, tristeza, misto de sentimentos, alunos correndo pela sala, outros copiando o exercício na última hora para não perder o ponto, e o vai vem de alunos na mesa para receber o visto. Logo logo toca o sinal novamente e ele acaba mais uma jornada. Mais é sempre assim, o último sinal não toca nunca. Enquanto ele faz a chamada da pela falta de Rafael… sim ele não estava em sala de aula. Muita gente, uma média de 45 a 50 alunos por turma. Realmente, Rafael não tinha falado com ele, nem mostrado o exercício para ganhar o ponto…

Finalmente a sirene grita. Todos saem, Daniel arrefecido organiza as coisas antes de sair e cruza com Rafael no corredor.

— Professor, valeu! Com a grana que ganhei comprei fraldas pra minha filhinha.

Daniel olha para Rafael e fala:

— Cara, você não imagina o quanto isso me deixa feliz! – e os dois seguem abraçados até a sala dos professores.

— E ai, como é que foi na prova?

— Não sei. Foi ontem… o resultado só vai sair daqui a uns três ou quatro dias. É só a primeira! O processo seletivo para o mestrado da UnB é longo, são quatro etapas. Essa foi a primeira. Prova de língua. Vamos esperar!

— Nessa o senhor já passou! Tenho certeza!

— É, mas vamos esperar… não é bom cantar vitória antes do tempo. Falou com o Fagner?

— Ele me chamou. Falou desse negócio da gente ir vender livro com o senhor, mas eu falei pra ele que era de boa…

— Massa! Ele me falou que vai avisar o pessoal da família de vocês, tranquilo?

— Sim. Minha mãe nem lhe conhece, mas ela é sua fã. Só em saber que o senhor tá me ajudando…

— Legal… e o lance lá do exército? Pra ti é uma boa… Tem certeza que quer mesmo a carreira militar?!

— Ah professor, querer, querer não queria não, mas no meu caso, é o que tem que ser… né?!

Era demasiado pensar tudo àquela altura… caminhavam em direção à sala dos professores. Era muita coisa se passando ao mesmo tempo em minha cabeça, o drama dos alunos, de casa, dos filhos, da carreira, dos bichos, tudo relampejava na mente.

— E ai, vamos ou não vamos? Aquela cervejinha… o pessoal tá combinando na casa do Milton, de Artes, logo mais… vai ou não vai? – indagou Juliana, a professora de Artes.

— Não vai dá, não! Tô indo para casa, e ainda tenho que pegar os meninos na escola.

— Ah… você nunca vai!

— Vou, vou sim, é que ainda não sobrou tempo!

— Que nada…

— Hoje a noite então?

— Sim, Rafa, no mesmo local, nos encontramos e vamos lá botar esse povo para pensar. A noite então, 115 Norte.

— Combinado!

De volta à sala dos professores Daniel deposita os livros e o material na mesa coletiva. Caminha vai até a copa, que fica anexa. Um puxadinho como se aproveitassem o antigo banheiro, pouco mais de dois metros quadrados, com uma pia, um filtro de parede, um pendura copos, e muitos copos e pratos sujos deixados na pia. Bebe água, lava o copo e devolve ao pendurador.

Ju entra na sala, se deparam, fala mais animada:

— Então? Vamos? Vai na ser na casa de um professor conhecido. Aparece, você vai gostar de conhecê-lo. Vamos?

— Ah, Ju, não vai dá não, vou sair daqui correndo para pegar os meninos na escola, e de lá na parte da tarde, editora!

Não perca amanhã, mais um capítulo dessa emocionante história…

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Quem vai querer comprar bananas? Capítulo 4

capitulo4Haja estômago. Manhã tumultuada, tudo indo contra, foda. Respira, ainda não parece acreditar em tudo que viveu a poucos minutos atrás… deixa pra lá… ao cruzar o pátio da escola, o sinal toca, anunciando os dois últimos horários. 3 ano A, sala dos alunos citados na conversa. Passo pela sala dos professores antes de seguir para a sala no final do corredor. Bebo água. Ju chega com cara de exausta:

— E aí? Esses alunos hoje tão com a peste! Tá tudo bem contigo? – indaga.

Daniel meneia a cabeça, lava o copo na pia e coloca de volta no escorredor.

— Sim! Eu tô meio de cara, mas depois eu te conto! – i n a c r e d t á v e l… depois te conto… vou lá…

— Valeu!

Na sala ao entrar pede silêncio. Muita movimentação. O pessoal do fundão, Gabriel, Carlos, Marcos, Maurício e Ana Clara fazem aquela cara: “professor eu quero é que o senhor morra!” dois, três mais na frente, sentados direitinho, no outro canto da sala uma turma de meninas que fofocam e riem enquanto trocam de mão em mão o aparelho de celular.

” A nota, professor!? O senhor já fechou a nota da gente?” – um outro mais exaltadinho pergunta com tom ameaçador. Fase difícil, penso enquanto senta e abro o diário de classe.

— Bem, hoje, pelo que vejo aqui, tenho que dar o visto no livro, o capítulo 2, né mesmo!? O que eu combinei com vocês? Temos uma aula de 50 minutos por semana. Então, uma aula tiramos as dúvidas e fazemos o exercício, na outra dou o visto. Vamos lá… número 1! Fizestes o exercício?

— Não fizestes, professor! – e ri com o resto da turma.

… Daniel calcula e como a vê o desastre, prossegue:

— Número dois… fizestes o exercício do livro, capítulo 2?

— Não fizestes, professor… e cai na gargalhada.

Mais uma vez como a tocar adiante ele prossegue.

— Três, fizestes ou não fizestes o exercício?

— Não fizestes… e assim vai indo até que chega a vez de Marx.

— Número 34, Marx? E ai? – pergunta.

Caminhando até a mesa do professor com o livro aberto nas páginas do exercício, Marx fala baixinho:

— Tudo bem? O senhor parece estranho… tá amarelo. O que houve? Tá tudo bem?

— Sim. Mas, olha, o Fagner veio me interrogar sobre o lance de tá levando vocês para vender livro. Cara babaca!

— Rafael me contou que o Fagner queria falar com ele. Vai ver é isso, né!?

— Não sei, mas ele me falou que vai mandar um comunicado para mãe de vocês falando dessa coisa. Eu disse que ele podia mandar que é tranquilo. Né mesmo?

— Sim… manda ele falar com minha mãe que ela vai falar bem do senhor. Lá em casa todo mundo sabe… Vamos hoje de novo? A galera tá animada! E ai, de cima?

— Espera aí, tenho até que vê, depois dessa babaquice toda, perdi até um pouco do tesão! Ah, mas quer saber, vamos sim! Não estamos fazendo nada de errado. Vamos nessa! Mesmo esquema, pego vocês depois, a noite.

— Massa! Viu como ela tá linda, hoje! É linda, né professor? Gatinha demais.

Daniel ri, descontraí, por um momento idealiza o amor de Marx pela menina mais bonitinha da sala. Ela é séria, uma morena realmente muito bonita e metida.

— E aí, com a grana que ganhei já dá até para chamar ela para sair! Eu chamo?

— Calma! Vai devagar… adverte. Se for chamar para sair, convida para o cinema, não vai levar a menina para barzinho, não!

— Pode deixar! Mas ela é arredia.

— Vai com calma!

(…)

— Numero 35! Fizestes?

— Não fizestes, professor!

— Não turma, vocês estão zoando! Não acredito que vocês não sabem nem responder minha pergunta! Não fiz, professor! É assim…

Mas um pouco bate o sinal novamente e espero a turma sair para entrar o 3 ano G. E continua a mesma peleja do fizestes? com o não fizestes, professor! até que o celular anuncia uma mensagem:

“Amore, o Pretinho morreu!”

Amanhã continua…

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Quem vai querer comprar bananas? Capítulo 3

crise-mundial1Que porra, que bosta, que merda, já algum tempo as coisas não iam bem! Precisava realmente mudar o jogo, fazer a virada, tava louco para correr pro abraço, mas parece que a jogada saía para escanteio, tudo agosto ainda em março, tempo instável, chão vermelho, idade avançada, só incertezas diante da vida, das pessoas, vinha acumulando, blablás, blablás, blablás… uma ladainha que guardava comigo, que no fundo sabia que não me ajudaria em nada, outro blablás, blablás, blablás… também não dava mais para tacar o “que se foda!”, muito embora o país tava uma merda, o mundo tava uma bosta, os norte-americanos impondo restrições ao dólar… guerra, grana, filhos crescendo, cachorro mordendo as coisas, para logo em seguida aparecer morrendo, até aquela cervejinha tinha sido posta de lado em defesa da multa, éramos todos filmados nos bancos, shoppings, avenidas, catracas, alavancas, sistema, concursos… Então reuniões, afazeres, arroz para por no fogo, plantas para aguar, leituras atrasadas, meninos, bichos, ufa… estava cansado e embora o cenário fosse bem atrapalhado e complicado era esse mesmo o qual estava inserido, enredado, e por mais que absurdo, a pergunta martelava a todo tempo: como é que vou sair dessa?

Na escola, ao chegar depois de deixar o Pretinho em casa, já na entrada o diretor fala:

— Precisamos conversar. O senhor tem um tempo? – e crava um olhar de reprovação, enquanto o acompanho silencioso até a sala da Direção.

Na sala, depois dele se arrumar na cadeira, fazer um muxoxo, falseando um cacoete enquanto fingi arrumar as coisas espalhadas em sua mesa, resmunga:

— Sabe professor, precisamos conversar. Uma professora veio me dizer que estava num bar, na Asa Norte, quando viu o senhor vendendo livros com outros três alunos desta escola. Queria lhe dizer que nesta escola não somos de acordo com esse tipo de coisa… Da forma como ela me falou, fiquei preocupado, o senhor sabe, em Brasília, com essa história de melhor salário de professor do país, essas coisas assustam. Tudo vira notícia, e acho que não fica bem, o senhor com esses meninos, que são de menor…

— Alto lá! – bradei indignado.

— Diretor, eu não sou louco! De quem essa professora falou, é o Max, Rafael e o Logan, todos tem entre 18 e 20 anos.

— Bom, mesmo assim, o senhor conhece os pais deles? Eles estão de acordo? Eu não quero meu nome envolvido em escândalo, por favor?! – falou por último demonstrado um certo afetamento ou desdém.

Muitas coisas se passaram na minha cabeça. Respira, mesmo num torvelinho de emoção, comoção, compaixão, recomecei falando:

— Fagner, esses alunos tem mais de 18 anos, e me procuraram na escola, perguntaram-me como poderia ajudá-los. Não sei se você sabe, Max acaba de ser pai, engravidou Luana, que estuda nessa escola no 1 A. Mora com os pais e mais 4 irmãos, numa casa de 2 quartos, aqui na AR 08, uma quadra conhecida por ter várias bocas de fumo; Rafael, é quarto filho de uma mãe que acaba de ter mais um filho aos 44 anos de idade. Ele não se entende bem com o padrasto, que tem praticamente a mesma idade dele e uma irmã com problemas de saúde sério; já o Logan, pelo que me contou precisa urgentemente trabalhar pra vê se consegue sair de casa e ajudar a mãe, que está cansada de apanhar do pai. Não é da minha índole, explorar a boa vontade das pessoas, e sim ajudá-las.

Um silêncio pairou. O diretor Fagner se remexeu na cadeira. É o senhor sabe a professora me falou isso eu…

— Pensei que o senhor sabia. Me senti meio que na obrigação quando eles me procuraram e perguntaram como poderia ajudá-los?

Engraçado que pelo que me disseram sempre estudaram nessa escola. Chegaram no terceiro ano, praticamente o último ano ginasial, e não sabem fazer nada que possa servir de ajuda para ganharem dinheiro! Precisam ajudar em casa, sofrem com problemas de autoestima, são alvos potenciais do narcotráfico. Na ocasião unica coisa que me veio à cabeça foi levá-los comigo numa campanha de incentivo à leitura que faço e que idealizei para promover meu livro e de outros escritores amigos meus. Como vou à noite nos bares e cafés da cidade anunciando os livros de poesia pensei, poderia lhes dá uma gorda comissão. Não há nada de errado em vender livros. Não vendemos filmes piratas, nem produtos ilegais. Levamos conhecimento, cultura, inflamamos a massa a pensar, refletir sobre o próprio quintal. A ideia principal é praticar a economia solidária, fazer o dinheiro circular entre a gente, chega de dar dinheiro pro estrangeiro que vem aqui e domina a mídia nos empurrando a cultura dos best-sellers goela abaixo. Com história que não tem nada a ver com a nossa realidade, de neve, no Brasil não neva; de vampiro… no Brasil não tem vampiros… nossa cultura é boi-tatá, é saci Pererê…

— Chega! Já entendi. Mas de qualquer forma eu vou mandar um comunicado para a família destes jovens… – falou com certa empáfia.

— Sr diretor, posso lhe falar mais uma coisa?

— Sim! – falou pregando os olhos.

— Por vezes, me sinto um professor de verdade quando estou com eles conversando, aconselhando, junto, me sinto mais útil assim do que quando estou em sala de aula lecionando, tentando mostrar o que está por trás do conceito de sujeito oculto!

— Entendo… – falou de maneira vaga – e depois acrescentou: Bom se é assim, eu avisarei os familiares. E o senhor fique atento, hoje em dia não é bom a gente ajudar, depois ainda vão querer lhe processar… fique esperto!

— Estarei! Posso sair? – falei com o estômago embrulhando.

— Vá, vá! – retrucou o diretor como se a enxotar-me dali, balançando com a munheca mole no ar.

Amanhã continua…

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CONCURSO NACIONAL DE POESIA 

TEMA: O DESASSOSSEGO EM VISITA

Esse estado de alma pode ferir ou curar, mobilizar a imaginação, interrogar a tristeza ou fazer-nos sonhar com o paraíso.

O amor, a verdade, o medo, tudo o que sentimos ou pressentimos nos desassossega, e tudo isso nos precipita na poesia.

Por alturas da data em que Fernando Pessoa fechou o livro do seu desassossego – 30 de Novembro, 1935 -, a Poetria e a Cena Poétrica lançam o 2º concurso literário em forma poética, com o tema “O desassossego em visita

Condições de participação:

  1.  Ser sócio da CENA POÉTRICA – Associação Cultural ligada à Poetria, preenchendo e enviando a ficha de inscrição anexa e efectuando o pagamento da jóia (pagamento único de 10,00€)e quota anual (15,00€) ou,  para os que já são sócios, tenham as quotas em dia até 2014. Os sócios da CP beneficiam de várias regalias incluindo a oferta de um cartão de descontos na compra de livros, workshops, bilhetes grátis ou com a preços reduzidos para espectáculos teatrais e outros benefícios que irão sendo anunciados.
  2. Cada autor poderá apresentar até um máximo de 4 composições poéticas – quadra, soneto, livre, prosa poética – e cada composição não deverá exceder o espaço de uma folha A4, escrita em word, fonte arial e corpo de letra 12.
  3. Os textos deverão ser inéditos, individuais e não terem sido premiados anteriormente.
  4. Os textos serão apresentados via email ou postal, com a informação sobre os dados pessoais do autor:

Nome correcto (próprio ou pseudónimo)

Endereço de e-mail

Telefone fixo

Telefone móvel

5. O prazo para a recepção dos trabalhos a concurso terminará no dia 12 de Abril de 2015. Ter-se-á em conta a data do selo do correio.

Os textos  a enviar por via postal deverão sê-lo para:

LIVRARIA POETRIA

Rua das Oliveiras, 72, r/chão, loja 12

4050-448 PORTO

e a sua recepção será devidamente confirmada pela Poetria através de email.

Depois de realizada a selecção (por um júri avalizado), um único texto de cada um dos 50 autores seleccionados integrará uma Colectânea, da qual se editarão 400 exemplares, em co-edição da Poetria e Cena Poétrica.

Cada autor seleccionado receberá, a título de direitos de autor, 2 (dois) exemplares do livro na noite da sua apresentação, que se realizará em 13 de Novembro de 2015 no Auditório da Biblioteca Almeida Garrett, Porto.

Os trabalhos não seleccionados serão destruídos.

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