Quem vai querer comprar bananas? Capítulo 15

mphaickel54c89d68ce106Os meninos… vamos lá: os meus, os teus, e os nossos! Claro que isso merece um capítulo à parte; como não falar dos filhos, essas peças, figuras, parte da gente, gente inteira, dias e noites, juntos, perto, longe sem tá, de todo jeito, os filhos são uma herança em vida. Depois tudo vira saudade, mas o antes e durante é o que interessa, o que nos move, nos faz virar leão, galinha, águia, seja qual bicho for, a verdade é que mudamos com sua chegada e nos derretemos com suas permanências… há quem veja sua continuidade, sua obra, sua tarefa, missão por esta passagem, um ser onde aprendes e por fim começas a entender a ti um pouco mais, que é outro, com suas idiossincrasias.

Não há evolução sem o ciclo completo. A corrente gira e engata, abraça os elos de sangue quando observamos não só a relação com os filhos, e nos damos conta de nossos pais, avós, e partilhamos de boas lembranças da família, da geração de anos e décadas, datas, símbolos e gestos vividos no ambiente do lar.

Lar doce lar de meus sonhos, dos teus sonhos, dos sonhos de todos nós que nos trás a vida o doce e meigo olhar de minha avó sempre a me alimentar com seu canto de manhãzinha, canto de Nanãn, canto tupi, jererê… ah como me acalmava o acalanto de minha vó, quando ela me chamava para estudar, depois a gente com mais meus outros primos íamos com ela varrer o quintal e subir em árvores, e comer jambo, seriguela, beber água de coco, carambola, juntar folhas de caju; no quintal tinha um cajueiro enorme, bem junto do muro, mas enorme, gigante, que a gente chamava caju babaçu, só caju que te fazia babar e a nódoa na camisa era certa. Era meu avô chegando no começo da tarde com os bolsos cheios de balinhas Xaxá, sabor banana, café, não sei o quê docinho… açúcar, doce, meninada saía correndo do quintal, cerca, brinca, estica a mão, pede bênção, vovô ri, vai desviando pela sala, contorna, a essa altura na casa chega os tios, as tias, cachorro latindo no quintal, gato desocupando os sofás da sala, televisão anuncia mais uma propaganda, o jornal alardeia mais alguma coisa, aqui e ali se arrasta pela Avenida São Sebastião um ou outro ônibus monobloco, barulhento, soltando fumaça preta no ar…

Daniel também evoluía por se ver parte em todo o ciclo, o tempo passa, já tinha sido filho, enteado, neto, pai, tio, padrinho, cunhado, padrasto e passando por todo esse túnel do tempo até que chegasse ao presente um tanto sambado, cobrando e sendo cobrado o tempo todo, dando e respondendo o tempo todo a perguntas, respostas, situações, exemplos, medo, certeza e dúvidas o tempo todo… Já não dá mais para ver as coisas como antes, mas sim como agora, que também pode ser diferente de tudo daqui a pouco. Um futuro não tão distante, um passado nem tão presente, mas que nesse torvelinho um fio só se emaranha por todos os lados, dando vez a outros fios e vidas, e sentimentos, uma ou outra paisagem, viagem, pessoa… e o mundo da gente está cheio de pessoas, de gente, cada qual com sua razão, seu propósito, sua decisão, por isso e por aquilo, nada é em vão… mais fácil achar mesmo é que nada faz sentido ou tem obrigação de fazê-lo; uma família é uma experiência das mais intensas aqui na Terra. Pare para pensar, pense… como seria se não existisse a família, por mais imperfeita, briguenta, fofoqueira, competitiva e sendo essência nos garante a sobrevivência, e que não te vença a indiferença…

Para o carro na porta da escola. Espera, liga o rádio, aguarda… mais com pouco toca novamente a sirene… o portão da escola abre, os meninos saem, se atropelam, se empurram, riem, correm, fazem caras e bocas, as meninas param para se maquiar, na rua os carros encostam, o ônibus velho e sujo encontra, a criançada entra, os carros desviam, param, as portas abrem, uns saem, outros entram, lá vem Caio, lá vem Clarice, há bem pouco tempo buscava Marisol, sua primogênita na escola, e ia de bicicleta, desviando dos carros pelo caminho. E para completar o time do meu, dos teus, e dos nossos, tinha ainda Antonio Carlos e Messias. Atualmente Daniel convivia com os filhos de Yolanda: Caio e Clarice, o com Antonio Carlos filho de uma pulada de cerca do seu primeiro casamento com quem teve mais tarde Marisol e Messias.

Entram no carro Caio e Clarice, um com pouco mais de 15 e a outra beirando os 13 anos. Já lá se iam três anos que estavam juntos Daniel e Yolanda, mas para valer mesmo, morando juntos, pouco mais de um ano.

— Vamos lá! – apressa Daniel.

Caio tira e joga a mochila no carro, Clarice entra sem falar nada e senta no banco traseiro. Vamos lá, subida, quebra-molas, mais subida, partiu casa. Chegar comer e sair para UnB.

Em casa Yolanda dividida entre ler os e-mails, vigiar a comida para não queimar, roupas na máquina e ao mesmo tempo pintando as unhas do pé.

— Oi Amore, é hoje? Tá preparado, estudou um pouquinho?

— Sim, na hora lá dou meu jeito! Pode deixar… e a comida, pronta?

— Falta só um pouquinho! É o tempo de tomar um banho…

— Antonio Carlos ligou, perguntou se você pode ir pegá-lo nesse fim de semana?

— Claro! Liga a TV, quero ter noção do tempo, não quero me atrasar…

— Vai dá tempo sim, a prova não é só as quinze horas?

— Sim, no CT…

— Anda toma logo teu banho… vou apagar o fogo das panelas.

No banho Daniel recorda os outros dois filhos, Marisol e Messias, vivem com a mãe em outra cidade. Lembrar dos dois é lembrar sua juventude, os tempos de faculdade, de liberdade total, de amor e fuga, toda uma aurora que por sua luz iluminou um sonho, uma utopia, da qual começou a escrever sua história na sua cidade natal, e que virou depois caminho e por último desvão. Tempo, tempo, tempo, que avança e recua na memória, que sobressalta, plaina até que uma porta bate, outra fecha, e o vento passa, a brisa passa, e tudo passa, quando se vai ver o dia virou noite, e quem pensava que não ia sair vivo aprende novamente a respirar, mais, sempre queremos ou estamos em busca de dar o melhor para os nossos, garantir-lhes a sobrevivência nessa selva; alguns arriscam a própria pele, outros adotam outras táticas, a sobrevivência é de acordo com o ambiente e as circunstâncias, isso não muda. Se você não fizer as circunstância estará as intempéries do ambiente. Água na cara, aquela era mais uma chance de fazer as circunstâncias, persegui-las, lutar, se submeter a prova… haveria de passar, oxalá passasse…

— Tá pronto… gritou Yolanda da cozinha.

— Sim, estou pronto! – respondeu Daniel como a buscar a autoconfiança que lhe faltava para seguir firme na hora de fazer a prova. Em seguida desligou o chuveiro e se mirou no espelho e repetiu mais uma vez:

— Sim estou pronto!

Já no auditório do CT ouviu atentamente as últimas instruções da prova pronunciadas por um dos fiscais:

— Vocês terão três horas para responder a prova. Qualquer dúvida levantem o braço que um dos fiscais se dirigirá até vocês. Boa prova a todos.

A hora tinha chegado. Essa era apenas uma das etapas do processo seletivo, ainda teria mais três etapas: projeto, entrevista, e prova final. Com calma leu o texto em espanhol, parágrafos longos, pouco claros, trechos com citações de teóricos, massudos, emborrachados, um tanto difícil de pronunciar ou mastigar… e novamente o desafio de correr contra o tempo se faz feroz, o tempo passa, lê, relê, volta, avança, procura significado da palavra no dicionário, a prova podia consultar dicionário, ele vira página, procura, folheia, rabisca, sublinha, extrai, escreve, cansa, dorme um pouco sobre a prova, retoma, o fiscal avisa uma hora e meia de prova, agora falta pouco, alguns começam enfim a entregar e sair, ele reescreve, repensa, analisa, avalia, escreve mais um pouco, fecha uma ideia, transcreve e reescreve, agora sim as respostas vão surgindo devagar uma a uma a prova vai tomando uma cara, o desafio começa a não mais intrigar, acredita, respira, tem jeito, leva fé, ainda assim titubea ao entregar, relê mais uma vez, sabe que é importante passar e finalmente após reler suas respostas entrega a prova, já aí faltam trinta minutos para acabar o tempo total. Duas horas e meia, avalia, tá bom, seja o que Deus quiser, o que tiver que ser, será!

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Quem vai querer comprar bananas? – Capítulo 14

capa_cinzaAntes mesmo de tocar a terceira sirene a turma já havia terminado. Ainda lutavam com a lembrança, ou memória; isso um ou dois alunos mais esforçados. Will meteu as caras na porta da sala e bradou:

— Libera para quadra! Quem terminou pode ir para a quadra!

Aquilo nunca tinha soado tão bem nos ouvidos. Houve um princípio de algazarra, mas de pronto Daniel bradou:

— Quem tiver de zoeira eu não vou recolher a prova!

A turma aquietou, passou entre as cadeiras recolhendo as provas de quem já havia terminado e a rapaziada foi saindo para a quadra da escola. Lá a diversão dava bola para a algazarra, lá se esticavam pelo sol como gatos, rosnavam, se embolavam e o resto da manhã seguia com a subida do sol.

Sobrou um tempo, um intervalinho de duas a três horas antes da prova. Hora de sair correndo para repassar ainda alguma coisa. Respirava fundo e começava ali uma nova caminhada que poderia lhe levar um pouquinho mais além. O mestrado em teoria literária, sim um sonho que poderia lhe abrir novos horizontes tanto na editora onde trabalhava bem como com a carreira literária de escritor ou na carreira de docente; com o mestrado poderia engrenar nas universidades. Por hora era tudo sonho e a realidade de professor temporário e de escritor underground era um tanto sufocada pelas contas, vida de artista então caminha meio empurrado pra fora do carro. K de caramba, carambolas, malabares, palhaços se esbarrando no picadeiro, durante o ensaio, às dez e meia, descontrai contando ou ouvindo uma piada, outra piada. Aos poucos se encontram todos os professores na sala e partindo uns se despedem entre corredores, entre cafezinhos e folhear de páginas.

Tudo tenso, nós da trama, da vida, que vão se apertando e entrelaçando uns aqui e desenlaçando outros dali, como compões o céu de estrelas formando pontos, pontes, que nos remetem a outro Universo revelando nossa pequenez, de lascar a imensidão comparável somente ao sonho, um desejo que faz girar o carrossel, a abóboda celeste… respira, anda pela sala dos professores organizando o material, ao lado pastas, livros e diários. Mesa grande, cabem todos, Carmen lança notas nos diários, suspira, Juliana entra esbaforida, Dinha e Lucinha chamam para o cafezinho.

— Então Daniel… café fresquinho…

— Cheirou… – rebate Daniel com o aroma do cafezinho fumaçando no copo da Dinha. O cheiro mexe com todos. Um outro aluno estica o pescoço da porta de entrada, arrisca chamar Milton de Matemática, mas acaba por desistir e sai correndo. A Matemática a ser um bicho de sete de cabeças, como a Literatura, a Arte, Geografia, a escola se arrasta numa didática de cuspe e giz ainda em século XXI. Na real a sala de aula ainda continuava a ser a grade horária, corrida, mal estruturada, onde faltam recursos, e sobra paixão; o ambiente, mesmo na capital do País, as escolas ainda que de uma melhor estrutura arquitetônica, mas pouco funcional, o projeto inicial e modelo da capital idealizado e implantado nos anos 70 com as Escolas Classes, sem dúvida se perdia sem rumo num mudo em constante transformações, principalmente em termos de tecnologia, quesito de suma importância para a vida, mas extremamente “proibido” nas escolas, “devices” que cada vez se voltava ao individualismo, a resolver serviços, e a escola não servia para isso, parecia ignorar a própria realidade, com conteúdos e mais conteúdos cada vez mais alienados num egoísmo feroz… não a escola prestava outros serviços, depósitos de pessoas, que ao contrário do que dizia o mestre Paulo Freire ignorava o seu próprio meio. Por vezes mesmo, Daniel se questionava sobre os conteúdos dos PCNs. Com a força da Internet as mudanças se processavam em bites e bips, bips, teeemmmm eeennnnn uuuuuuuuuu, no começo era assim, bem antes dos anos 2000, na virada do milênio a Internet era discada, hoje a coisa já estava bem mais rápida e silenciosa, uma transformação se convertia em códigos de barras, javas e androides num ciberespaço, nas nuvens, a escola perde seu espaço físico, já não consegue organizar sequer o conhecimento, há um bombardeio a cada segundo de informações, sites, blogs, e-commerce, o fluxo é muito rápido, as pessoas viajam muito mais, depois de muitas lutas, idas e vindas, e processamentos de terabytes e redes conectadas em perfis, tudo muito virtual, chats, toda uma revolução acontecendo, mas que parece de fora dos portões. Intermediações, sai com Dinha e Lucinha para o pátio depois do cafezinho. Mais com pouco chega Juliana.

Dia bonito, meninos correndo nas quadras, muitos indo embora, portão aberto, sol e vento frio balançam as copas das árvores.

— E a rodada do fim de semana? pergunta Daniel.

— Não é que deu uma graninha… Ganhei ainda uns mil e duzentos no poquerzinho.

— Uma graninha!? Porra quem me dera ganhar mil e duzentos numa noite? é quase o meu salário…

— E tu? Não ganhou nada?

— Só onze pontos… não dá merda nenhuma…

Juliana arremata, sorte no jogo, azar no amor… Franco entra na conversa:

— Que nada… Jogo é jogo e Amor é Amor… não mistura as coisas!

De repente tá feito a rodinha, parecem uma tribo na aldeia, responsável por mandar sinais de fumaça. Cada um tem um causo para contar, uma ideia, um projeto a espera de interdisciplinaridade, ou como querem e também pode ser, transversalidade, combinando tudo num só enredo.

— Então? Preparado para a prova? – pergunta Juliana.

— Claro, mais tarde… estudei um pouco. Tenso, UnB… mas de boa. Fiz Letras, né! Tenho que saber… na hora lá é calma e elegância…

— Sei não… esses caras ali são muito é alienígenas, que nem no livro do Machadão – rebateu Franco.

— Que nada! A UnB é tudo de bom – acrescentou Dinha.

— Vamos ver mesmo é na hora. Prova é sempre difícil, não tem nada fácil! Se for fácil, desconfie…

— Com certeza… pairou um silêncio.

— Prova de quê mesmo?

— Língua e Literatura espanhola.

— Boa sorte.

— Valeu!

Dali a conversa prosseguiu por mais alguns minutos e depois Daniel partiu para pegar os meninos na escola.

Amanhã continua.

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Quem vai querer comprar bananas? – Capítulo 13

mikeyUfa, todos sentados e quietos, agora podemos começar a respirar, por hora só espiava, de pé, ao lado da mesa, escondido por trás dos óculos escuros. Um aluno mais metido a engraçadinho comenta:

— Tá ligado mesmo, professor?

— Vai fazer a prova caladinho aí ou quer ir fazer lá na Direção?

Por um momento todos parecem se sentir desafiados, os poucos que resistem também se aquietam. Silêncio, suspirar, olhares de dúvidas, de náufragos, de esquecimento, abandono, branco total, a toda hora um se ajeita na cadeira, se mexe, remexe, escreve, apaga, escreve novamente, é hora de sentar um pouco para a pedreira que teria à tarde.

E Daniel tava ligado ali naquela sala, tinha que está plugado o tempo todo, cada sala com seus mais de cinquenta alunos requer uma demanda muito, muito grande, uma responsabilidade pelo outro que exige muito amor, dedicação, e para tanto é preciso conhecer bem, mesmo que de conselho em conselho que participava, sabia um pouquinho de todos ali. Mais uma das lidas na arena da vida, jogados aos leões, para evolução da espécie, a seleção que se dá por vários processos, métodos, sorteios, intempéries da natureza ou por influência da lua ou posição dos astros, sei lá, que se lasquem os bons e maus motivos, a realidade é que estamos o tempo todo sendo testados, o simples fato de estarmos vivos é suficiente para estamos sendo testados, estarmos atentos à sobrevivência, para uns mais, para outros menos, mas para todos encargos e tributos a pagar para uma máquina estatal e governamental que está nem aí, e assim se passam quinze minutos, meia hora, estão todos os alunos a entregar as provas, a querer sair dali, de onde o pensar continua enclausurado às paredes da instituição. Falta muito ao conceito de escola. Ela era caduca, do tempo em que ele foi aluno também secundarista… vai lá uns vinte anos e quase nada ou pouco nada mudou. Dizer que fazer aula diferente com música, dinâmica do abraço, comidinhas, ia ser diferente? Nada, sentia falta de um espírito renovador, estudara antes por vários colégios até se formar a pouco mais de uma década. Escolas de padres, franciscanos, públicas, privadas, particulares, de aluno a professor, na corrente que impulsionava a vida.

Enquanto a turma respondia a prova reinava um silêncio de ranger de cadeiras, de consciência pesada, de bem que mamãe avisou; aos poucos também tudo vai se recompondo e vai chegando a vez da inquietude, e o tempo volta a avançar, devagar a manhã se arrasta diante das dificuldades das perguntas que pairam. O que teria que responder mais tarde? quais questões caíriam? interpretação de texto? questões mais descritivas? dissertativas? que viesse como viesse Daniel também seria submetido a mais uma prova que lhe seduzia com a promessa de um mestrado, uma capacitação que poderia lhe abrir novas portas da educação, lecionar nas universidades, trabalhar com pesquisas e novos projetos, somente a graduação já quase nada ajudava no mercado de trabalho… um cenário cada vez mais difícil e concorrido, sim, já se iam quatro anos trabalhando como contrato temporário, mais três em escolas particulares… Muito trabalho, muita coisa nesses sete anos. Parecia lembrar como desde então resolvera assumir as classes e sair das redações de jornais. Trabalhava antes como diagramador, movido pelo desafio procurou o jornal como disciplina para escrever, apaixonado pela poesia, desde cedo aprendera nas palavras a melhor maneira de se resolver com a vida. A transgressão poética era o rompante de uma lucidez boreal, vermelha, ardilosa, que o seduzia com suas musas e mulheres. Dedicado às paixões e ao idílio, Daniel sabia que mesmo em poesia, expressão maior de sua terra natal, do seu umbigo do mundo, vivia mesmo o crepúsculo do milênio e ao mesmo tempo um romper de um novo dia, o impasse paralisante do ser ético, que adotava-se abruptamente e aos trancos com a descida da ladeira. Blablás, um movimento qualquer e era mover tudo do lugar, e ia se pela regra do erro; do improviso, do arremedo. Uma caricatura da Disney… que se repete nas ruas, nas lotéricas, nos bancos, nos ônibus, em toda parte, tem sempre a figura do zé de seu… se fazendo de bobo para te roubar, se não teu dinheiro, no mínimo teu tempo… tempo, modalidade que vai além de tic e tac, assim como a outra medida: dinheiro. Bens e zens: o ter o que contar, e o contar por ter; ter equivale a possuir, e esta relação se estende das coisas para as pessoas como trepadeiras, samambaias. É como decorar a casa, você vai se empolgando e nunca acaba, por mais que coloque bibelôs, espalhe jarros, pendure quadros, coisas que você acredita deixar a casa a sua cara bem maquiada, cheia de charme e envolvente; sim, mas a melhor casa mora dentro de nós, e Daniel sentia sua casa desarrumada, isto porque arrumar a casa nunca foi seu forte, a primeira família trouxe a compreensão e consequentemente na cabeça existe tanto espaço, tanto espaço que chega a ser surpreendente como o conhecimento é outra dimensão importante nessa equação: o tempo e o espaço determinam o viver. Um espaço de provação, mas tarde ele também teria sua prova como uma pedra a mais no caminho. No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho. Eu nunca mais vou esquecer que no meio do caminho tinha uma pedra, e que Daniel precisava contornar essa pedra e até mesmo todo o caminhar da sua vida, o bom que para isso não teria que fazer uma única prova.

Amanhã continua…

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Quem vai querer comprar bananas? Capítulo 12

capitulo12Chove forte. O céu carregado… hard também os pensamentos enquanto aguarda no carro… difícil de acreditar, entender, absorver, encaixar, fosse lá como era, ou sei lá como fosse, vai saber?! Chovia, então ouvia o rádio, baixinho, bem baixinho batia também seu coração, como a gritar o sopro; os olhos que não queriam ver nem enxergar, a boca que nada dizia, só o rádio toca baixo junto com o tamborilar da chuva no teto do carro e parece acompanhar os compassos. Mais com pouco o sol iria clarear a nave, a sirene tocaria, e novamente mais um dia. Por hora só queria ficar quieto, enquanto chovia; catatônico se liquefaz com a chuva.

A rotina, as classes o mantinham ali. Os compromissos assumidos com a vida, família, amizades… O portão automático só agora parece fechar completamente o espaço percorrido. Tudo tão diferente e igual a tudo… com maior ou menor grau… agora adotara o discurso menos radical que nos tempos de faculdade; novamente tudo tão distante da realidade, conteúdos, formas, práticas: aguarda no carro, deixa chover, tem tempo, capaz que com todo esse aguaceiro os alunos não venham: poucos conseguem acordar e sair de casa.

Daniel está ali para o ofício de ensinar, inspirar, instruir, passar adiante, conduzir, ministrar, facilitar, monitorar, recrear, vigiar, passar as horas… chove, tem uma hora antes da aula começar. Um tanto resignado? Não! Como? Encontra-se ali, debaixo de chuva… deseja prosseguir… a chuva engrossa, o vento agita a copa das árvores próximas do carro. Já sente-se um tanto velho para continuar e também para ficar paralisado. A música é interrompida pela notícia da chuva, do trânsito parado na descida do Torto, na Estrutural, na EPNB, na EPIA; mas ele chegou, antecipado ao caos, com a chuva e o vento, para começar a aprender com mais um dia…

Chuva para professores e professoras, para os alunos, para o pessoal da limpeza que começa a andar de um lado para outro, prepara o café, o cheiro acalma, mais um dia, o dia começa. Tudo ali está impregnado de luta, das mais diversas formas, há o conhecimento que prepara o chão, o quadro, anota no papel, apaga com a borracha, refaz os cálculos, copia e reescreve, e que é repassado oralmente, isso ecoa pelas salas, passeia pelos banheiros, ressoa com a sirene, alteia pra depois parecer calar. Passeia daqui pra lá, corre com as crianças de mãos dadas com a esperança, grita pelas quadras e silencia nos olhos, no horror da repetição… mentes e corpos, experiências que extrapolam o espaço demarcado da sala de aula… vai caminhando pelo corredor até o banheiro.

Dia de prova geral para os alunos e para ele também. Mas vamos lá! A chuva passa, o vento passa, os alunos chegam, chegam também os outros professores, sala dos professores, alunos esticam os pescoços pelos corredores, aos poucos crescem os rumores. Deposita na mesa o material, acomoda-se enquanto os rumores e ameaças da prova se espalham e fermentam pelas salas, à espera da sirene, e dessa vez vai ser diferente, ou espera-se, vai ter prova. Com algumas diferenças, a começar com as médias: na UnB: sete; no ensino médio: cinco; média da média de dez, digamos apreendimento médio, mediano, medíocre! Há de se considerar também ambiente, orientação, conhecimentos de que lembrava em sala de aula para os alunos do terceiro ano do ensino médio. Sei lá, o exemplo ainda é a melhor lição. Então me esforçava dentro e fora da escola para estar sempre a buscar o melhor e para fazer o mestrado precisaria eliminar as quatro etapas do edital lançado pelo departamento. Aquele ano não tinha deixado passar em branco, ficou ligado, acompanhava tudo, leu boa parte da bibliografia indicada, uns 30 a 46 livros de teoria pesada, intercalando e dialogando, uma polifonia de autores mais modernos, contemporâneos, mas velhos, em busca da curvatura do cânone… a prova de língua seria só a primeira: o rancking até que começa concorrido, são pouco mais de 46 vagas para um total de 88 inscritos para passar no tão desejado processo seletivo. A aula hoje era pela manhã inteira. A prova na UnB tava marcada no auditório da faculdade de tecnologia para as quinze horas. Dava tempo de ir em casa, comer, pegar o dicionário de espanhol e testar seus conhecimentos também; testaria a dos seus alunos e seria também avaliado, no fundo se ria e gostava da situação… frio na barriga, nervosismo, apreensão, em ambos, em todos.

Parece então que depois do soar da chamada, a velha verificação atrás das colas… vai aqui, vai ali, puxa cadeira mais pra frente, empurra cadeira mais para trás, troca aluno de lugar, manda guardar tudo embaixo da carteira, que encima só lápis, caneta e borracha; trouxe dessa vez sua arma secreta, uma coisa simples, mas que serviria para deixar todos mais apreensivos, principalmente os “pescadores”, que sempre tem numa turma grande, com mais de cinquenta alunos como era a turma do terceiro ano F. Passeia pela sala e anuncia:

— Sem essa de quem não cola não sai da escola! Se eu pegar pescando ou perguntando um para o outro, é zero na hora!

Continua amanhã, mais um capítulo…

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Quem vai querer comprar bananas? – Capítulo 11

Dia longo, atravancado, cheio de idas e vindas… descansar, tudo que eu queria era isso, descansar… mas quem disse que se consegue? Em casa ainda tem mais coisas para fazer, roupa para pôr na máquina, lista do que fazer no dia seguinte, preparar aula, planejar trabalhos de grupos, o que era legal também, trabalho de grupo, espanhol através da culinária… um tantos pratos saborosos, comidinhas fantásticas, à medida que os grupos vão apresentando sempre preparam o quitute e trazem para sala de aula… aulas de espanhol também não é só culinária, tem música, poesia, debates, simulações de acontecimentos cotidianos, como ir aos Correios, ao Cinema, adoro simular que estamos na praia, acho mesmo que é só saudades do mar. “Na vida tudo se resolve com água e sal… ou com suor, com lágrimas ou banhando-se no mar”. E era trabalhando e suando muito que tentava superar o cansaço do dia; sempre seguido de reclamações, como se a ditadura do cartão de crédito urgisse a metros de distância de mim… no fundo, de todos. Todos no sentido de comunidade, sociedade, nação. Aquela coisa de estar inserido no contexto ou tessitura, ou pelo menos se encontrar sob o comando de leis, normas, sendo regido por horas e recebendo ou pagando por elas.

Sobra muito pouco tempo, estamos todos o tempo todo a reclamar do tempo que é pouco e quando nos sobra um tempinho que seja queremos descansar… um tic, tac, tic, tac frenético que não para e se parar é porque algo vai mal e precisamos descansar para estar bem o tempo todo. Que assim seja, descansar, eis a palavra da noite.

Arruma papel, recolhe roupas espalhadas, tomar banho, lembrar os curumins de escovarem os dentes, liga a tv, desliga computador, liga ventilador, desliga tv, liga rádio-relógio, ouve música, lança mão de mais um livro debaixo da cama, lê duas, três poesias curtas, comenta, Yolanda responde, a noite adentra a madrugada, ela fecha mais um livro… liga computador, desliga a música, teclado nervoso, enquanto ela registra mais um dos apontamentos necessários para a construção da sua tese divaga, pensa, parte e reparte, duvida, suspeita, vai e volta, investiga, ninguém percebe isso, o filho bate na porta… a filha também quer atenção, ambos adolescentes e não estão nem aí para nada disso, nem Daniel, no fundo tá longe, relembrando o dia, ufa descansar, lembra? essa era a palavra, logo logo é dia novamente… os meninos tiram a mãe do quarto, passa da meia-noite… cochila, vacila os minutos e como num passe de mágica apaga, vigília tudo vira colagens, caleidoscópio, vem o rosto dos alunos, o sorriso da mulher amada, a cara levada do enteado, a saudade dos filhos distantes, em um certo ir e vir… suave é a noite!

— Amore e lá na editora?

— Na editora há um portal muito louco que te leva ao trovejamento, revoadas, arvoredos: “vos que aqui adentrais, perdoai esta bagunça!”… livros aos borbotões, espalhados por toda a mesa, agendas, calculadoras, telefones, e mais máquinas, geringonças , fotos, álbuns, pilhas, delhas e pardelhas, discursos, palavras duras, ideias mágicas, doçura mesmo que acalma, que nos faz seguir cantando baixinho um hino de vitória, como se molhássemos todos os dias uma plantinha, abríssemos outras portas; mansinha Dona Iris cataloga, identifica, olha encantada com cada livro, e nos leva pelo número até a estante, organiza, aproveita e ajeita um vaso e também fala da flor e tem mais, nos faz jovem incansável guerreiro articulador, até um telefone que toca, um embaixador que se anuncia, o comendador aproveita e se estica indo até a ante-sala onde está o cafezinho, duas gotinhas, observa os armários da Nasa que estão ali, que guardam roteiros, romances, poemas, aventuras, histórias e ideias, thesaurus, volta e senta novamente entra com ele, o embaixador de Cabo Verde, danam-se a falar, enquanto isso na sacada um poeta pita um cigarrim e ensaia mais um texto que fala de música para ser lido na rádio. É o Taveira, voz gotejante, de gosto refinadíssimo, poeta de versos e trovas, revisor, palestrante e mais um da plêiade que ajudou a fundar a ANE.

O embaixador conta sua história de guerrilha, parece depositar com palavras seus fuzis, seu cansaço, suas derrotas e vitórias, melhor: suas mudanças e contudo vai aparecendo assim as pilhas de livros sobre a mesa, os dois se olham, ajeitam as lentes, a língua os une, respiram e conversam, a vida prevalece, até que os pássaros que habitam nos ponteiros do relógio de parede gorjeiam, quinze horas é a vez dos sabiás, se não me engano… Às dezesseis é a vez de outro passarinho, o galo de campina é reproduzido pela maquinaria do relógio, que hoje nem é mais de corda, não tem corda, funcionam até a pilha acabar, ou darmos por conta que ele não assusta mais, por vezes vencemos o tempo, não temos tempo a perder e estamos perdendo tempo, o tempo todo; ganhamos do tempo quando construímos, quando da diáspora, do transitório, do eterno ir e vir… ganhamos do tempo quando relativizamos, quando nos solidarizamos com o Planeta, quando vemos no outro a nós mesmos, como fazem as árvores que nos observam quando passamos… quem passa apressado somos nós. Elas são as testemunhas vivas da luta do embaixador em campo minado.

Entre sonho e vigília a noite adentra, Yolanda volta quietinha num pé de vento. Agora os meninos dormem, a casa inteira dorme, é o momentinho que lhe sobra… lê um pouco mais, anota e desliga os “devices”… os dois dormem até que o dia se levanta e com ele de novo o corre-corre; o pão quentinho na chapa, começam as idas, a escola onde trabalha… mais um dia, hoje tem ida também à UnB para a primeira prova da seleção do mestrado. Prova de línguas e interpretação de texto. Mas antes tem que ir para escola e realizar o velho esquema da chamada… na manhã seguinte não teria quitutes, nem músicas, nem poesia, ia ser dia de avaliação geral. Sabe como é, a coisa não tá fácil para ninguém!

Não perca amanhã, mais um capítulo…

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Quem vai querer comprar bananas? Capítulo 10

O comércio. Um verdadeiro bicho de sete cabeças. Tão antigo quanto a aurora do homem. Em um mundo pós-loucura ainda assim se mantém de pé. Ícone de troca, moeda: tanto compra-se como vendem-se serviços e produtos. Atualmente compra-se e vende-se de tudo, ou quase tudo… muito mais que fé é preciso jogo de cintura para passar pelas mesas e oferecer-lhe doses de poesias, contos, romances, filosofia, rebeldia, e compreensão. Ninguém vende só o produto. Vende mais, não são só livros, são conselhos, exemplos, despertar e anoitecer de espíritos inquietos, que ressoam por séculos, como se a gritar por justiça social, respeito, mais Amor, sementes em ideias… “óh bendito que semeia livro”… mas esse mesmo livro além de adeptos, têm também inimigos, tem indiferentes, desinteressados, e como tudo na vida é preciso procurar pelo seu público, seus pares, e são muitos, são tantos e aos mesmo tempo é ninguém, tem hora que vai, tem hora que não aparece nada… mais duas três mesas, outro bar, outro café, e um novo simpatizante se encanta, compra, fica teu amigo, parece se importar, apoiar, e novamente se renovam as energias, e tudo tão assim, nada é fácil, perderia a graça, é preciso seguir adiante, parece relaxar, para novamente desesperar, forças, energias trocadas, olhares, histórias e amizades.

De um tudo acontece em noite de lua. Naquela noite não ia ser diferente… o alvoroço foi o ocorrido com o Marx, praticamente baculejado por um cidadão completamente bêbado que cismara com sua cara e o acusava de ter desaparecido com seu celular. Rafael ainda interveio: “Peraí, o sr. é polícia? Se ele tá dizendo que não pegou seu aparelho, porque tem que apalpá-lo?”

O clima ficou tenso, o homem reclamava o sumiço do aparelho, tanto Marx como Rafael titubeavam com o inesperado, o atendente chegou perto, até que a mulher do “Orelha”, desconfiada da vacilação do marido acalmou os ânimos dos presentes. Os dois saíram de volta para o carro, a noite não tinha fechado bem ainda.

Era mais ou menos assim a história toda que me contaram, mas fiz questão de tirar a limpo, então voltei à cena, me apresentei, olá, sou Daniel, professor e incentivador da leitura por acreditar no poder transformador que a educação tem, esses são meus alunos, Marx, Logan e Rafael. O que aconteceu? Eles me contaram que tinha dado um xabu aqui com vocês…

— Não aconteceu nada! – já está tudo bem. Meu marido perdeu o celular, coincidentemente quando os meninos estavam vendendo livros aqui na mesa.

— Como posso chamar pelo seu nome?

— Andréa! Me chamo Andréa.

— Andréa queria deixar meu telefone com você para que você me avise mais tarde quando achar o aparelho do seu companheiro. Tenho certeza que meus amigos não fariam uma coisa da qual viriam a se envergonhar!

— Me desculpe, meu marido bebeu demais. Acabou se excedendo!

— Lamento muito o ocorrido. Como é o nome do seu marido?

— João! João Andrade… ele é do bem, só bebeu um pouco mais do que devia…

— De qualquer forma quero que anote meu número e me avise assim que achar o telefone. Tudo bem?

— Sim!

João se aproxima, Daniel se apresenta, pede licença para falar, tenta ajudar a encontrar num primeiro momento, João olha pro chão, reclama, procura pela mesa, fica assustado estamos todos juntos ao redor dele, fala alto, esboça uma reação, Daniel vai de cá, vai de lá, ele então manda…

— Carambolas, João! Como você pode acusar sem ter provas? Você viu um dos meus amigos roubando o teu celular?

— Não!

— Então como é que acusas as pessoas assim? Por que cismastes com o Marx? Esse cara aí, é honrado, véi… tá que nem eu trabalhando na noite, não podes fazer isso que você fez não…

— O quê que eu fiz? Diz aí?

— Pisou feio na bola! Tá aí cheio dos goró querendo arrumar cascaria com os outros! Tem certeza que tu não esquecestes esse celular em outro lugar? Tu não fostes no banheiro? No carro? Tu lembras ainda se chegou com o celular aqui? lembra?

— Qualé meu irmão? Eu lembro! Eu tava com esse celular na mão, na mesa. De repente o celular sumiu… os caras tava passando aí… sei lá…

— Rapá…! Tá de carro aí? Num esqueceu nada no carro, não? Não foi lá buscar alguma coisa? Procura isso direito, rapaz, antes de fazer um lance escroto desses…

Nisso por trás, enquanto Daniel e João jogam a capoeira da esquiva do bate e assopra, Logan segura Marx, que Rafael tá louco também, mas ficam só por perto, não agridem, indignados observam, vai daqui, vai dali, vamos embora.

Voltam pro carro, todos falam ao mesmo tempo. Putz, refaz, respira, pausa antes de seguir, e como seguir? climão, calma, senta todo mundo na pracinha, traz o rango, cada se serve, come, lancha, fala, reflete, Rafael comenta:

— Cara filho da puta, professor! Foi encima do Marx… carajos…

— Esse filha da puta entrou numas porque eu sou preto! Me dá uma raiva nessas horas, professor!

— Sai dessa… o cara tava bêbado bosta! Ia cismar com qualquer um, ele fez foi perder o celular, deu mole… Cara mané!

— Porra, e bote mané nisso! Mas dá raiva!

— Cara o importante é você está bem consigo. Ter a consciência tranquila, tu não roubou celular, então foda-se!

— É cara! Não encana, não alimenta o ódio. Cara é um filho da puta, éhh! Tem que se ligar, fica bêbado fazendo merda… vai se foder qualquer hora dessa! Bota, fé?

— Vamos lá… vamos lá… desanima, não! Come aí…

— Gostei professor, o senhor encarou o cara, eu não sei ser sangue frio assim!

— Qualé… o cara estrapolou, tem que ouvir também, aí foi um tal de blablás blablás bláblas e tals e tals e tals…

Porra clima fechou. Marx tava indignado, puto, cheio de ódio por dentro. Comércio, noite, já tinha ficado tarde, a noite avançara, quase meia noite, meia hora para zerar tudo.

— Vamos nessa, vamos subir a serra? A noite foi-se vamos comendo no carro, no partiu feroz e desumano!

Realmente noite louca! Nunca tinha havido algo assim! Situação desastrosas, o álcool destrói… merda, mastiga e engole. O carro sai pianinho todo mundo se arrumando e dividindo o que sobrou do pão… rapidamente estamos passando a ponte do Bragueto, vem a subida, a descida, sobe a serra, a essa altura, Rafael está no telefone celular, Marx no banco de trás conversa com o Logan e no carro toca uma música instrumental. Encosta no Colorado, para abastece, trintão, muita grana pouca gasolina. Porra tá foda! Foi boa parte do lucro que é pequeno, por volta de 30 e 40%, no final pouco mais de 8%. Livro. O ganho maior é a formação de público, é a capacitação através da leitura, ou melhor da literatura, que encanta, seduz, ensina, prepara, não há quem não se reflita, se aproxime ou distancie do personagem, da história, conscientiza, humaniza, desangustia, nostalgia, faz sonhar, faz enxergar a realidade, no fundo é um transfusor de mensagens, cores e sensações. Tentam desvendar os sentidos e os sentimentos, nos teletransportam no tempo, no lugar, no agora.

Não! É certo, o livro ainda tem uma sobrevida de mais 50 anos! A qualidade da leitura essa sim, cada dia tá desaparecendo mais… Sinais dos tempos, mais amor por favor… leitores, leitores é preciso preparar o cidadão e a leitura ainda é a forma mais barata de preparar uma Nação, pela Educação. Mas não, o país é covarde, a política se alimenta da miséria. Pagamos a gasolina mais cara do planeta, e somos auto-suficiente em petróleo. Temos uma das maiores costas litorânea, ótimo para geração de energia limpa, renovável, mas não, sofremos o risco de apagão ao longo dos anos, de mandato em mandato, ainda dizimamos índios e florestas para desviar leitos de rio para construção de hidrelétricas. Que dizer? A noite é longa e já começa o processo da formação do dia.

Punk, silêncio, climão no carro, desliga o rádio, contorna o balão do Colorado, pega no rumo Fercal, contorna, acelera, apruma e joga na banguela e sente descer, todo mundo parece afundar no banco do carro que adentra pela estrada na sinuosidade controlada, maneirar, mais ali um pardal, oitenta, agora não adianta muito correr, o mais importante é chegar bem em casa. O pior já passou, no final todo mundo faturou uma graninha, e isso ai, deixa o carro nos levando direitinho…

— E amanhã? De novo?

— Sim! Vamos!

— Por mim de boa! E tu, Marx?

— Já estou mais tranquilo, vamos sim!

— Isso aí! Vamos então, mesmo esquema.

As coisas caminham finalmente bem de novo. Telefone toca. Daniel atende:

— Alô?! Sim, sim, lembro. Andréa? Achou? Ah, que legal… e tava aonde? Debaixo do banco do carro!? Eu sabia! Tá, tá legal! Eu aviso, melhor… eu vou passar o telefone para ele. Só um momento, Marx… atende, é pra ti!

— Alô, Marx? Desculpa por tudo, meu marido achou o telefone…

— Ainda bem!

Sim, agora parece que a noite finalmente terminava e terminava bem! Finalmente, depois de deixar todo mundo em casa, em Sobradinho II, chegava em casa também.

Amanhã continua…

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Quem vai querer comprar bananas? Capítulo 9

capa_o_amor_de_marianoCaminha, força sempre, logo mais avista a comercial. Vem por dentro, agora já não é mais árvore, é carro, sinal, mesa, gente falando, neon, fumaça; agora a coisa muda de figura, vira trabalho, e trabalho é uma coisa séria, mas também é mais, uma ação que requer planejamento, propósito e isso faz um diferencial e é esse diferente que atrai, que distrai, que encanta, ou então atende a um desejo, e para tanto temos que estar preparados, Daniel chama atenção dos alunos, que sigam o mestre, que vendam muito mais que o papel, que vendam as ideias por trás das palavras, que suas missões serviriam para humanizar, incentiva a prática da economia solidária, a circular os bens culturais, falemos de nossa aldeia, dos nossos problemas, das nossas realidades, do próximo; e não de de neve, de vampiro, de magias ou bizarrices: “Universal é teu quintal” – lembra… ” e o nosso quintal é tupiniquim” – acrescenta.

As conversas aumentam, a noite começa a mostrar a cara, ele vai para a terceira etapa da jornada. Recordando, pela manhã na escola, de tarde, Editora, de noite, ronda pelos cafés divulgação da sua obra.

Ninguém é sozinho. Além dos seus livros, leva sempre o de outros autores conhecidos, amigos, e mistura além disso livro de outros autores clássicos universais. É preciso oferecer um bom serviço. Ter variedades, o cliente é exigente para livros, quando os lê.

Marx e Rafael se embrenham na noite, sentem-se veteranos, um dá força pro outro e seguem avançando pelas mesas… “Boa noite! Livros… Campanha de Incentivo à leitura: em vez de um filme pirata, que tal ler um livro legal? Dos autores da cidade?”.

Primeiro causa espanto, depois as pessoas passam a gostar da ideia, livro fascina, é a proposta de conhecimento, o conhecimento não ocupa espaço, desperta, mexe, provoca, os livros são depositados na mesa, e daí partem para outra mesa, novamente a abordagem, a estratégia, a possibilidade, a reação inesperada, a cara de surpresa, o tempo, o processamento, a informação, uns evitam virando a cara, outros param, escutam, algumas vendas são realizadas, outras ficam na promessa, a turma se dispersa, depois se encontra, se reúne, dão o “partiu, feroz e desumano”; outro bar, outro café, novas pessoas, novas luzes, copos, talheres, guardanapos, beijos, abraços, demonstrações de afeto de casais, fome, mastigação, as pessoas devoram, leem, passam folhas, acendem cigarros, batem cinzas, levantam copos, tudo muito colorido, fumaçado, muita música, risadas, à noite todos os gatos são pardos, as pessoas se misturam, se conhecem, se apaixonam, Rafael volta encantado com uma mulher que conhecera a pouco, ainda mais que comprara um dos livros do seu bolo. Comemora, empurra Marx, contorna aqui, avança para outra mesa, fala, gesticula, recebe atenção de pessoas que jamais sonhava ver, homens, mulheres, jovens, adultos; festeja, vendeu mais que Marx e que o Logan, com certeza, é o mais articulado, desinibido, metido a galanteador:

— Dani, aquela professora dá mole pro senhor! Tá pegando? – indaga com gozação.

— O que é isso! Primeiro que não sou Dani, meu nome é Daniel! Segundo, sou apaixonadão pela Yolanda… não faria isso!

— Frescura, professor!

— Frescura coisa nenhuma! Quando a gente ama…

— Frescura é esse negócio de Dani… gosta, não?!

— Claro que não!

Os dois riem… a noite segue, Logan começa a se soltar, já vendeu uma graninha também, todos estão alegres, a noite foi boa, de repente Daniel dá o grito, se junta aos demais:

— Pesquei, pesquei…

— O quê? O quê?

— Um peixinho! Uma garopa! Cenzinho… Todos se animam.

A noite avança rápido, já já é 22h30, já começa a ficar tarde, a jornada tripla cobra o cansaço… ele já vai ficando um pouco mais atrás, deixa a meninada empolgada desenvolver… vão os três, ele confere os livros, organiza o estoque no porta mala do carro, sai por ali, enquanto os três continuam o trabalho pela comercial Daniel desgruda um pouco os olhos e vai na direção do supermercado 24h, compra pão, suco, queijo fatiado e mortadela; a galera vai passando, Bloco A, Bloco B, Bloco C, conhecem a rota, ali Martinica Café, Casa de caldos, Casimiro, Terapia, Beirinha, 2 Clichê, Distribuidora, Raízes, Senhoritas, e assim vai. Escolhe bandeja, entra em fila, paga, aproveita e troca o dinheiro, ajeita o troco, volta pro carro, espera a turma regressar, tá cansado, vai propor arrego, oferecer comida, pausa antes de seguir. Suspira, olha pro céu, a noite está estrelada, a lua vai alta… procura a turma com os olhos, pega o celular e liga…

— Cadê vocês? Vão demorar ainda?

— Tamo terminando… anuncia. Ta’moindo… o sr tá no carro?

— Sim, tem uma merenda aqui. – suborna para a galera voltar mais rápido.

— O que é?

— Venham logo ou vou comer tudo sozinho!

— Ta’moindo!

Esse ta’moindo só falta matar Daniel de raiva… pensa em falar, mas Logam é mais rápido e desliga o telefone. Respira antes de começar… relembra o dia… os problemas, as dificuldades superadas, as alegrias, a saudade de Yolanda, relembra sua voz, seus carinhos, companheirismo, sente mais vontade de terminar logo e pegar o carro e acelerar para casa. A turma volta falando muito e com cara de aborrecimento. Rafael fala alto e gesticula, Marx parece socar o ar de revoltado e Logan, mais atrás balança a cabeça ainda sem compreender. Deu alguma merda, pensa rápido Daniel… Tudo parece tão difícil pro dia acabar, ainda que seja avançada a noite. E não acaba…

Amanhã continua…

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Quem vai querer comprar bananas? Capítulo 8

capitulo8A noite cai, transcorre o tempo e o vento balançando a copa das árvores, frutos, flores, folhas… balanga ali uma copa inteira, as árvores se cumprimentam, se espalham, produzem sombras, arejam os pensamentos…

O vento não se conforma, sacode, arrasta, sopra e o balanço movimenta, força os elos da corrente, geme, a gangorra inverte a posição, o parquinho da quadra procura pela infância desde a janela, tudo vira tela, algazarra, turba, os meninos, que não são mais crianças, são pais muito cedo, Daniel também fora pai muito cedo, cada um com seu cada um, como as árvores ali.

Festejamos, o vento traz para perto e depois leva para longe… o vento é matreiro, os caras também.

A ronda vai começar, reúne, dispersa, dois vão por ali, Logan, vem comigo… caminha, conversa, arruma os livros, repassa o argumento:

— Livros, Logan… sabe bem o que é isso? Tens ideia do poder transformador que os livros têm? Nós vamos vender livros na noite, nos cafés da cidade. Legal, né?

— Menas, professor. Menas…

— Putz, Logan! Menas não existe, carambas!

Divaga, volta no tempo, lembra, lombra… sai de só, por incrível que pareça se multiplica na ação,há uma maneira de acabar com o poder. Partilhando! Socializando o conhecimento, ensinando e aprendendo… vamos lá, mais uma etapa na jornada tripla. Manhã, escola! Tarde, editora; noite, campanha de incentivo à leitura. Sim a aula continuava, o desejo de partilhar a informação local, falar do quintal, autores de nossa cidade, andar pelo Eixão, é andar pelo quintal da humanidade, colhendo frutos das árvores, viajando na poesia aleatória das tesourinhas, do vento, da paisagem, “era setembro ela beijava-me o membro numa manhã primaveril”, uhhhhh, Drummondiando, era assim, a abordagem, sempre com um poema e um sorriso… voz vibrante, no olhar aceso a chama, o desejo por justiça muito grande, por mais equidade, isonomia, paz antes de tudo, porque em paz se divide, sobra tempo para fraternidade, para a troca das sementes, cria-se a tradição… mais um leão a enfrentar, a ignorância!

A abordagem na noite, não deixa de ser um trabalho que aos poucos está se diluindo com a tecnologia. Postos e mais frentes de trabalho foram reduzidas ainda mesmo no processo de produção. Bom, muito bom essa modernidade, globalizante, e ainda assim escravizada ao tic-tac do relógio encardido da repartição. O bicho papão do transcurso, trans-metadados, novos conceitos, novas leituras, equivocadas? certas? absurdas? loucas? nem tanto ao céu, nem tanto ao mar? vai saber? tem que perguntar? é preciso antes colecionar, trazer à luz, permitir, ouvir, libertar, mostrar e dizer que pode, que todo mundo tem acesso, tá tudo aí… dentro! hahahahahaha, brincadeira, mas é sério! Irmão tamojunto! é nois queiróz! zoroz… a abordagem tem que ser capoeira, angola, miudinha, na ginga e no chão, boca de siri, armada, olho no olho, eu falo e escuto… a esquiva é sempre a primeira saída, mas tem que voltar pra roda, não pode deixar escapulir, um olho atento e outro contente… vamos lá, ginga que eu quero vê. É capoeira, é luta mas é dança, é munganga, é no chão, dentro sem machucar! vale bisca, mas não vale beliscar! é ação e reação, bom mesmo quando rola interação, o jogo vira comércio, vai além fronteira, vai a quem entende, evolui pra´lem do casco, o tempo muda, mudou também as distâncias, tudo muda de lugar, o mundo gira a noite avança… e tudo começa e termina, mas só termina quando acaba, e ainda tava longe de acabar…

Amanhã continua.

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Capa protetora de livro e jornal Dragão de couro com trinco

capajornalTrabalhada a Mão capa e livro de couro com um dragão e o sol na frente. Border & embossing traseira pode variar. Os tamanhos variam ligeiramente. Couro, papel feito à mão. 240 páginas, o encerramento trinco. 6 “x 8”.  R$ 93,00.

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